teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Bem no alvo

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Partículas podem transportar remédios até a doença, sem efeito colateral

Imagine a cena. No interior de uma artéria, alguns poucos átomos de ouro carregam uma droga a ser despejada com precisão sobre um tumor. Eles são conduzidos pelo campo magnético gerado na ponta de uma caneta manipulada pelo médico sobre a pele do paciente. Associados a um anticorpo, os átomos também podem grudar nas células doentes e vibrar freneticamente, aquecendo o câncer até fritá-lo. Parece roteiro de ficção científica, mas esse tipo de procedimento já é testado no Brasil por pesquisadores em nanomedicina, uma ciência que inova tratamentos e diagnósticos usando dispositivos de milionésimos de milímetro – a espessura de um fio de cabelo é milhões de vezes maior que a dessas partículas.

A nanomedicina é uma das formas mais atuais de se aproximar do ideal do bacteriologista alemão Paul Ehrlich (1854-1915): criar fármacos capazes de atacar apenas os agentes das doenças sem causar efeitos colaterais pela interação com outras partes do organismo. O Nobel de Medicina notou que alguns tecidos tinham receptores específicos para determinadas substâncias (eles se ligavam) e passou a buscar esse tipo de receptor em germes causadores de infecções. A ideia era que, encontrando uma substância que se ligasse somente a um agente causador de doenças, seria possível associá-la a uma droga tóxica que, então, iria agredir apenas o causador do mal. Esse conceito de um tiro certo, sem danos a outras partes do corpo, ganhou o nome de “bala mágica”.

Hoje, os médicos chamam de “tratamento-alvo” o uso de remédios específicos para determinadas partes ou células do organismo, afirma o cirurgião torácico do Hospital São Luiz, Ricardo Beyruti. Para ele, um grande trunfo da Medicina no futuro será o uso da nanotecnologia para a administração de tratamentos-alvo, injetando partículas que carregam os fármacos na corrente sanguínea. “Mas, por enquanto, o conceito é experimental”, lembra o médico.

As técnicas nano representam um grande avanço nessa área, de acordo com a Adriana Pohlmann, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A chave é justamente a faixa de tamanho e o tipo de estrutura dos medicamentos nanotecnológicos, que atuariam como minúsculos dispositivos guiados para liberar o fármaco preferencialmente no seu sítio-alvo. Essa seletividade, em geral, não é possível com medicamentos convencionais”, afirma no artigo “Bala Mágica”, publicado na revista Ciência Hoje. A nanotecnologia tem como trunfo seu reduzido custo de desenvolvimento, o que favorece a produção de medicamentos nanoestruturados em escala industrial.

Além disso, materiais miniaturizados ao extremo podem desenvolver características especiais que ajudam na tarefa de ir direto ao ponto. Mais moléculas em um mesmo volume, por exemplo, aumentam a superfície de contato e a absorção, permitindo reduzir a dose de drogas agressivas. Magnetizados, respondem com precisão a estímulos externos, rastreando e indicando a localização de doenças. Dependendo do material, também alteram sua condutividade e reação a calor e luz. As propriedades desses materiais abrem possibilidades para uma série de novos procedimentos. Os avanços mais recentes estão em três áreas principais: terapias, carregamento de fármacos e auxílio na detecção de doenças e metástases, com um grau inédito de eficiência.

Ataque

O tratamento descrito no início deste texto, usando as vibrações de nanoestruturas com átomos de ouro, por exemplo, faz parte de uma pesquisa da Universidade de Brasília (UNB) feita com animais. “Alguns resultados de experimentos pré-clínicos com camundongos e ratos mostraram redução de até 40% em tumores sólidos grandes”, destaca Zulmira Lacava, diretora do Centro de Nanociência e Nanobiotecnologia da UnB. O próximo passo, prevê, é testar a técnica em cães e gatos.

A universidade, referência da área no Brasil, também pesquisa o uso de nanopartículas magnéticas para transportar fármacos. Neste caso, as pequenas substâncias se acoplam a uma droga e impedem que o remédio seja absorvido em partes do organismo onde causa efeitos colaterais – exatamente o que previa o criador da “bala mágica” no começo do século passado. A associação entre nanopartículas e o fármaco só se desfaz quando o medicamento chega ao lugar certo, fazendo com que ele seja liberado com precisão. Essa dissolução pode se dar por meio de reações bioquímicas como mudança de pH, temperatura, ação da luz, ou então pela interação das nanopartículas com substâncias do agente causador da doença.

Em um estudo do grupo de Zulmira, nanoestruturas foram associadas a um antibiótico antifúngico, a anfotericina B. O remédio é muito útil contra a Pbmicose (um tipo de micose difícil de tratar que afeta o pulmão), porém, tem pesados efeitos colaterais, que impedem certos pacientes de prosseguirem com o tratamento. Com as nanoestruturas transportando o remédio, os efeitos colaterais foram minimizados. Zumira afirma que o sucesso e o baixo preço do procedimento devem fazer com que ele seja disponibilizado pelo SUS, embora ainda não arrisque uma previsão de quando isso possa ocorrer.

Experimentos brasileiros com camundongos e ratos mostraram redução de até 40% em grandes tumores sólidos por meio de uma técnica que faz as nanopartículas vibrarem e fritarem o câncer

As partículas nanoscópicas magnetizadas também têm sido usadas para intensificar a detecção de metástases cancerígenas extremamente pequenas, por meio de ressonância magnética nuclear. Normalmente, a ressonância gera imagens do organismo usando um contraste que identifica propriedades de prótons dos tecidos. Essas propriedades podem ficar mais evidentes com o uso do magnetismo das nanopartículas, o que leva a imagens mais nítidas. Zulmira lembra que as técnicas convencionais revelam o problema apenas quando mil ou até dez mil células já foram comprometidas; o novo processo consegue detectar tumores de apenas cem células. “Este deve ser um dos focos principais a se investigar, pois o diagnóstico precoce é fundamental para o tratamento.”

Controle

Embora produtos como nanotubos de carbono já sejam vendidos normalmente, especialistas alertam que serão necessários pelo menos mais cinco anos para avaliar possíveis perigos das substâncias, sobretudo os de toxidade. “Sabemos que há riscos, e os efeitos variam em função da dose e do tamanho das partículas, que podem até matar células de mamíferos”, aponta Valtencir Zucolotto, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP. Zucolotto testa a ação de nanopartículas em culturas de células e cobaias animais, examinando como afetam sua reprodução, crescimento e metabolismo. Ele diz não acreditar que haja motivo para medo. “O importante, agora, é padronizar e aprimorar estudos e métodos de teste.”

O grupo do especialista também desenvolve sensores para exame de sangue com esferas nanométricas, capazes de diagnosticar doenças parasitárias como leishmaniose e mal de Chagas. As esferas tornam possível identificar em poucos minutos concentrações de nanogramas de anticorpos por mililitros. “Os sensores são mais sensíveis, mais rápidos e mais baratos que os métodos de diagnóstico tradicionais”, revela. O mesmo princípio de diagnóstico pode ser usado, por exemplo, para quantificar doses de hormônios da tireóide em mulheres na menopausa.

Perspectiva

Soluções nanotecnológicas têm sido propostas em congressos e feiras internacionais para problemas diversos, como tumores de pele, boca, esôfago, pulmão, próstata, útero e intestino, controle de diabetes, tratamentos renais e combate a infecções por vírus, inclusive o HIV. De acordo com Zulmira, já existem, inclusive, modelos em nanomedicina para tratar tumores do cérebro, epilepsia e doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer.

Há quem vislumbre a criação de nanorobôs, máquinas biomecânicas capazes de navegar na corrente sanguínea e dissipar agentes agressores. Essa imagem, que inspirou o filme “Viagem insólita” de Steven Spielberg, permanece na ficção, mas não está tão longe do que já acontece. “De certa forma, as nanopartículas que usamos se comportam como uma espécie de nanorobô, mas de natureza bioquímica”, pondera o professor Antônio Cláudio Tedesco, que coordena um grupo no Laboratório de Fotoquímica e Fotobiologia da USP de Ribeirão Preto. “Elas se movem pelo corpo, localizam problemas e agem sobre eles.”

O grupo de pesquisa de Tedesco é pioneiro na utilização de nanomedicina Avanços mais recentes em nanotecnologia envolvem terapia, carregamento de remédios dentro do corpo e detecção de doenças com maior precisão para tratar câncer de pele no Brasil. Centenas de pacientes já foram clinicamente atendidos em três ambulatórios, instalados em hospitais de Ribeirão Preto, São Paulo e Brasília. A técnica usa uma pomada dotada de partículas magnéticas sensíveis à luz, que são carregadas com medicamentos. Quando o composto é aplicado, as partículas se concentram no local exato do câncer e, sob efeito de laser, o fármaco é ativado e combate a lesão.

Tedesco diz que o método é seguro, com eficiência em 95% dos casos, além de custar de um quinto a um décimo do preço da quimioterapia e radioterapia, considerando o tempo de internação. “Nosso interesse é levar essa terapia para um número maior de ambulatórios no Brasil”, ressalta, “inclusive fornecendo know-how e produzindo os fármacos nanoestruturados, dentro de nossa capacidade de atendimento”. Uma restrição da técnica é para o tratamento de melanoma (tipo de tumor escuro), que, por ser preto, não reage à luz.

Planejamento

A maior parte das pesquisas no país é mantida com recursos das agências públicas de fomento. Desde 2004, apenas o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) investiu R$ 191 milhões em projetos de nanotecnologia. Em 2007, um programa de subvenção emprestou quase R$ 60 milhões, a fundo perdido, para que 31 empresas brasileiras de base tecnológica desenvolvessem aplicações comerciais. Alfredo Mendes, coordenador de Micro e Nanotecnologias do MCT, reconhece que é preciso mais planejamento para o Brasil no setor.“Fizemos um trabalho de prospecção no ano passado para ver necessidades e saber o que, onde e como apoiar”, conta. Segundo ele, atrair mais pesquisadores para a área e fortalecer a colaboração internacional são, agora, prioridades.

(Texto publicado na Revista DNA – Hospital São Luiz, número 9, em julho de 2009)

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

23/06/2009 às 7:49

Publicado em Reportagem

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