teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Bons costumes

nenhum comentário

Antes que houvesse facções criminosas com celulares a controlar o tráfico de dentro dos presídios; antes que quadrilhas se pós-graduassem em logística para comandar roubos de carga nas rodovias da região; antes que garotos armados ousassem invadir residências, sequestrar e violentar pessoas; antes que surgissem as hordas de universitários bêbados gritando, brigando, urinando e atropelando velhinhas pelas ruas; antes, enfim, de tudo isso, houve um tempo em que tarefa de delegado de polícia em Araraquara era zanzar pelas ruas e praças fiscalizando o cumprimento da moral e dos bons costumes.

Um deles foi o doutor Góis Monteiro, membro da tradicional família alagoana e que apitou por essas bandas entre os anos 50 e 60. Dizem que ele chegou a prender um casal de namorados que se amassava sob a penumbra em um banco no Jardim da Independência. Chamou o pai da moça à delegacia. “Veja só, meu senhor”, disse, grave. “Esse sujeito estava mamando na sua filha em plena praça pública!”. Para a época, teria a menina preferido dormir no xadrez a enfrentar o sermão, se só, em casa. E, como tampouco havia tribunais de pequenas causas, a atribuição do xerife ia além.

Um dia, o doutor Góis Monteiro foi chamado a resolver uma pendenga entre um pedreiro e seu contratante, homem ilustre da sociedade local. Não haviam combinado preço. Quando o operário cobrou pelo serviço, o tal senhor achou caro e recusou-se a pagar. Ciente da história, na presença de ambos, o delegado não pensou duas vezes e sentenciou. “O senhor vai pagar, ou vai preso”. O fidalgo, então, esnobou. Sacou do bolso um maço de notas e as atirou no chão, aos pés do pedreiro. “Pois fica de esmola!” Virou-se e, quando já ia saindo, foi repreendido pelo comissário. “O senhor não vai pagar?”, insistiu. “Mas acabei de pagar, está aí o dinheiro”, retrucou o homem, apontando as notas atiradas no chão. “Não, isso é a esmola. Agora, senhor, pague logo o homem pelo serviço.” E ele pagou.

(Texto publicado no jornal Tribuna Impressa no dia 22/09/2011)

 

 

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

22/09/2011 às 18:06

Publicado em Coluna

Tags desta matéria , ,

Deixe uma resposta