teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

De Hollywood ao Cine Odeon

nenhum comentário

Com voz de galã, Bob Barlow tirou suspiros das garotas e um bom cachê

Conta-se, de memória, que a notícia causara alvoroço em Araraquara, no fim dos anos quarenta. Viria à cidade o cantor Bob Barlow, um dos crooners de orquestra que faziam sucesso internacional com o filme “Escola de Sereias” (Bathing Beauty, 1944). Imagine o que representava isso naquela época. Estrelas e galãs de rádio e cinema ditavam a moda e o comportamento da juventude que descia a Rua Três, no footing pela Esplanada das Rosas, e subia a Rua Dois, passando pelo Cine Odeon, onde o cantor norte-americano anunciado pelo diário local faria uma única apresentação por aqui.

E ele veio mesmo, a convite de um executivo da companhia telefônica, bem relacionado e também responsável pela crônica publicada na imprensa ressaltando o talento, a fama e a ocasião da visita do artista. Barlow, dizia, trabalhara com as big bands de Xavier Cougat e Harry James, intérpretes com suas orquestras na comédia musical de Hollywood que projetou a atleta de nado sincronizado Esther Williams como estrela de cinema, no papel da instrutora de natação Caroline Brooks, dividida entre a carreira e o casamento com o compositor popular Steve Elliot, interpretado por Red Skelton.

Para ajudar a promover o filme no Brasil, a trilha sonora trazia o choro Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, tocado pela organista Ethel Smith cercada de quinze jovens arianas numa luxuosa sala entre livros e porcelanas, com cabelos armados, vestidos de babado, lenços vermelhos e taillers, ritmando pandeiros e tantãs. Essa música, aliás, foi apresentada pela primeira vez em um baile na vizinha Santa Rita do Passa Quatro, em 1917, muito antes de ganhar as telas dessa e de outras quatro produções americanas, incluindo o musical Copacabana, na interpretação de Carmen Miranda.

Bob Barlow, na imaginação dos araraquarenses, fazia parte desse mundo de glamour e estrelato que, até então, só atravessara o Ribeirão Chibarro através de rolos de película e ondas de rádio retransmitidas da capital. Um cantor de Hollywood ao vivo e em carne e osso na cidade era motivo para as mulheres encomendarem um vestido novo e os homens disputarem espaço para recepcionar e conhecer o ilustre estrangeiro em sua inédita turnê pelo país. E muitos estavam lá quando o homem chegou à estação e desceu do trem, de óculos escuros, topete fixado e terno de tecido fino, engomado.

Crooners eram uma atração especial. Inventados pela nascente indústria do entretenimento na década de vinte, esses cantores de baladas acompanhados por orquestras logo passaram a ser endeusados pelo showbusiness, principalmente entre o público feminino. Alguns dos mais famosos foram Bing Crosby, Frank Sinatra e Dean Martin – e o negro Nat King Cole talvez tenha sido o melhor. No Brasil, seguiam esse estilo melódico e vigoroso astros como Francisco Alves, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo, que em 1941 gravou a valsa Saudades de Matão, composta pelo maestro italiano Jorge Galati em 1904, quando regente da Banda Ítalo-Brasileira de Araraquara.

Na data e hora marcada, todas as poltronas e os espaços de circulação do Cine Odeon estavam tomados. Bob Barlow apresentou-se de forma impecável, cantando seu repertório em inglês e arrancando suspiros, gritos e aplausos de todos. Terminou o show com uma homenagem especial ao Brasil, interpretando – em português! – o clássico Marina, de Dorival Caymmi, não sem o sotaque carregado. “Marrrina, morrrena Marrrina, usted se pintao… Marrrina, usted faça todo, mas faça um favaorrr… Naum penta esti rosssto que yo gosto y que é só meeeo…” Um marco na história musical de Araraquara.

Após os autógrafos, elogios e reverências de praxe, Barlow deixou a cidade sob saudações, levando na bagagem um bom cachê e, provavelmente, alguns lenços com perfume de moças araraquarenses que assistiram ao espetáculo na boca do palco, encantadas pela voz do cantor. Apenas uma semana depois foi que souberam pela imprensa da capital de sua prisão em Campinas, por estelionato e falsidade ideológica. O sujeito, brasileiríssimo, era, na verdade, de Mogi Mirim. Se não fosse desmascarado, seguiria turnê pelo país. Afinal, como até hoje se comenta na cidade, cantava bem mesmo o vigarista!

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

22/06/2009 às 2:11

Publicado em Artigo

Tags desta matéria , , ,

Deixe uma resposta