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Francisco Rolfsen Belda

Esmola e impotência social

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A reportagem informa: “Pedintes conseguem até R$ 90 por dia para usar drogas”. A campanha orienta: “Não dê esmola, encaminhe para a Casa Transitória”. O morador reclama: “É muito desagradável ver um bando de bêbados no meio da tarde ao se atravessar uma praça”. A assistente social sensibiliza-se: “Eles já são desprovidos de todos os outros direitos. Vamos preservar ao menos o de ir e vir”. As pessoas, em geral, se incomodam, constrangem-se e não sabem bem o que fazer quando abordadas: “Por favor, me dá um trocado pra comprar comida”.

Araraquara tem aproximadamente cem pessoas morando nas ruas. O número de pedintes é maior: cerca de 200. A sensação é de que existem cada vez mais, concentrados em pontos da Avenida 36, praças e bairros centrais de classe média e alta, onde a chance de conseguirem algumas moedas é maior. Suas histórias de vida são variadas. Há doentes mentais, dependentes químicos, desempregados, trabalhadores, ex-presidiários, imigrantes, gente abandonada pela família ou expulsa de casa.

Nos últimos anos, seus enredos passaram a ter um personagem em comum, o crack, ora como causa, ora como consequência da vida nas ruas. Não fosse o vício, seria menos difícil reverter a situação por meio de programas de assistência e reinserção social, que, em Araraquara, para complicar, ainda custam a sair do papel. Centros de atendimento especializado e moradias coletivas esbarram, por exemplo, na resistência de vizinhos. Ninguém os quer por perto. Acabam duplamente marginalizados.

Iniciativas como essas, apesar de necessárias, não resolvem o problema. A maioria dos moradores de rua do País já passou por abrigos, orfanatos, hospitais psiquiátricos e casas de recuperação. Ficam um tempo e depois voltam às ruas. Mesmo quando frequentam cursos profissionalizantes, resta a competição desigual no mercado, o estigma do próprio passado e a tentação alucinante do crack.

A solução preferida por muitos é que se pague uma passagem de ônibus e se devolva o problema ao seu município de origem. Aos que são daqui, não há muito mais a oferecer. Talvez a palavra de Jesus, ou mais alguns trocados no sinal, que mal disfarçam nossa tentativa de minimizar a própria sensação de culpa e de impotência social.

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

27/10/2011 às 15:35

Publicado em Coluna

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