teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Exercício 3: Identidade digital

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Leia o texto a seguir. Reflita sobre a nova dimensão identitária dos indivíduos em meio às trocas simbólicas mantidas através das redes digitais de interação comunicativa. Considere até que ponto existe identidade entre o ser que “é” e que “existe” no mundo e o ser que se “projeta” e se “revela” como protagonista nessas interações comunicativas. Responda, então, a seguite questão: Quem é você? Depois, poste sua resposta no blog da disciplina.

Avatar

 

Ciro Marcondes Filho

 

Um avatar não é um rosto. O rosto que eu acolho em mim e que me traz a diferença é o rosto que finalmente me comunica. É um rosto da presença. No presencial e pelo contato com o outro, eu entro em fase com aquilo que irá acionar em mim dispositivos de transformação. Mas nem sempre a vida em sociedade permite que meu rosto seja conhecido, menos ainda que ele ocupe, enquanto alter, o espaço vazio posto à minha disposição por um Tu, aguardando que, comigo, chegue à ocorrência comunicacional. As pessoas nem sempre podem se encontrar e meu segredo tem dificuldades em comunicar o diferente ao outro. Daí, o fato de que a construção de um avatar, protegido pela assepsia da tela, poderia, potencialmente, abrir espaços para que o outro me procure. Eu me mostrando espiritualmente nu, meu avatar me revelaria, seria expressão originária, pré-sígnica de um ser que fala por si mesmo, sem máscaras. Ora, mas não é bem assim. Vejamos porque.

 

O rosto, em Lévinas, vai muito além do rosto. Ele fala por si, é pura manifestação do ente, expõe cruamente nossa existência, suscita amor ou cólera, questiona meu ego, me deixa sem palavras. Ele não é o discurso sobre um ferimento, ele é o próprio ferimento aberto, exposto, cratera da interioridade. O outro me é infinito, inatingível; apenas percebido, cruelmente impregnando em mim. Nas rugas do rosto afloram os rastros de um si mesmo, de sua máscara, de seu vazio. Ele não é o dito, é o dizer, o verbo no infinitivo, plena sinceridade, expressão sem conceitos. Por tudo isso, ele mexe comigo, me incomoda, eu não o entendo. Mas ele é também o oposto do amor: é assimetria e não-fusionalidade, assim como o oposto da nudez. A nudez não desmascara nada, não ilumina horizonte algum, nada se descortina com ela; a nossa distância se mantém. E o que acontece com o avatar, com essa nudez construída, este despojar-se eletrônico? Será que ocorre uma comunicabilidade?

 

No avatar, eu me mantenho vestido mas dispo-me de meus atributos físicos; meu discurso já não é mais corpo produzido culturalmente pela moda, pelos costumes, pela estética do momento, mas apenas um discurso despido. Eu mostro-me além da vestimenta, além da aparência; mostro-me aparentemente como ente. Mas eu estou buscando a fusão, porque procuro o amor, o sexo, logo, não posso ser rosto, que é não-fusionalidade. Meu corpo tampouco fala por si, eu o construo pela linguagem, ele é um “dito”, um formato culturalmente impregnado, é discurso sobre o amor e a dor, não é eles mesmos. Ele não é, menos ainda, transparência pura, linguagem sem signos, “a-sígnica”, mas veículo de minha autopropaganda. Ele não mexe com o outro incomodando-o, ele seduz o outro pelos signos da aproximação e do acoplamento, buscando a simetria. Daí a aporia da proposta de Flusser: enquanto diálogo, acomunicabilidade eletrônica perde de vista isso, faz o rosto do outro desaparecer nas trocas digitais.

 

Fonte: MARCONDES FILHO, Ciro. “Avatar”. Boletim do Núcleo José Reis de Divulgação Científica. ECA-USP. n.23, p.5, julho de 2008

 

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

23/11/2011 às 23:19

Publicado em TV Digital

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