teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Homem do campus, homem da cidade

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Um aluno, certa vez, me perguntou. “Você trabalha ou só dá aulas?” Não havia ironia na questão. Ele realmente queria saber se, além de ter feito mestrado, doutorado, escrito trabalhos científicos, participado de congressos, ministrado disciplinas, organizado eventos e projetos de pesquisa, se além disso, eu também tinha experiência prática da profissão. Mas estava explícita na pergunta a desvalorização do “dar aulas” sobre o “trabalhar”. Afinal, como se diz por aí, quem sabe faz (mesmo sem saber fazer) e quem não sabe ensina (ainda que não saiba ensinar).

O episódio ilustra um pouco da incompreensão mútua que cerca o “homem do campus” e o “homem da cidade”, ou a dicotomia entre a vida na academia e a vida no mercado. A primeira é geralmente vista como bucólica, reflexiva, desinteressada (como se não houvesse rankings de produtividade científica). A segunda, dinâmica, pragmática, venal (como se não houvesse ética nos negócios). É a caricatura do filósofo contra a do rentista, e que faz esquecer as tantas matizes e nuances que separam esses extremos opostos.

De fato, nossas melhores universidades públicas dependem do imposto pago por empresas que vendem mercadorias. E nossas melhores empresas privadas também dependem da mão-de-obra qualificada e de novas tecnologias oriundas das universidades. Mas ainda estamos longe de um modelo em que empresas doem, voluntariamente, parte de seus lucros para que instituições de excelência em ensino e pesquisa projetem o futuro. E em que chefes de departamento de universidades não vejam como heresia o emprego de seus alunos, laboratórios e equipes de pesquisas na solução de problemas propriamente empresariais.

Imagino o que aconteceria se esses papéis se invertessem por um dia. Acadêmicos, feitos empresários de ocasião, precisariam tomar decisões urgentes, gerir pessoas, impulsionar vendas, avaliar balanços, gerar empregos e renda. Empresários e executivos, de súbido, teriam que dar aulas, emplacar artigos, orientar pesquisas e produzir conhecimento e inovação. Talvez assim percebam o quanto dependem uns dos outros. E o quanto teriam a ganhar, mutuamente, se fizessem aproximar esses dois mundos. Seria como dizer por aí: quem sabe, sabe porque faz; e quem faz, faz porque sabe. E quem não sabe… Bem, na academia ou no mercado, sempre é tempo de aprender.

(Texto escrito em colaboração à revista do programa PET do Curso de Letras da Unesp – Araraquara. O título “Homem do campus, homem da cidade” é o nome da seção da revista na qual o texto foi publicado) 

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

29/12/2011 às 19:10

Publicado em Coluna

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