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Francisco Rolfsen Belda

Made in Havana

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A saga de um cientista cubano por universidades, lojas e rodas de samba

Quando desceu em Guarulhos, de madrugada, o cientista trazia algumas moléculas numa cápsula e exatos 40 dólares no bolso, dentro de uma carteira surrada de couro marrom. Quase não trazia bagagem: “Cubanos viajam com pouco volume. Na volta, temos que levar compra e mantimento para a família”, explicaria algumas semanas depois. Fazia frio.

Minutos mais tarde, em frente a um guichê de informações, ele percebera que não tinha dinheiro para chegar ao Tietê e, dali, tomar o ônibus para São Carlos, onde faria um estágio de doutorado. Por isso foi sorte ter encontrado um jovem chileno, que ofereceu carona até uma estação do metrô. A cidade amanhecia cinza e confusa, e ele tinha fome.

Só relaxou um pouco já dentro do ônibus, bem confortável para os padrões da ilha de Fidel. Pensou então no filho e na mulher que deixara no pequeno apartamento em Havana, construído por ele próprio em mutirão. Pela janela, reconhecia a paisagem de canaviais. E aproveitou para contar mais uma vez o dinheiro, reduzido a menos de 20 reais.

O mais valioso que trazia na carteira era o papel com o nome e telefone da professora que intermediara sua vinda ao Brasil. Sem isso, talvez tivesse dormido na rua. Na cidade, porém, o receberam e o levaram a um hotel três estrelas, a uma quadra do campus da USP. Ali, recuperou as energias para o que sabia fazer melhor: decifrar a forma e a função de proteínas.

Para fotografar em raio-X as moléculas que trouxe de Cuba e relatar suas propriedades biológicas, receberia do Governo de São Paulo quatro pagamentos de 1.200 reais – quase vinte vezes seu salário de professor na Universidad de La Habana. Com eles, deveria pagar hospedagem, comida, transporte, algumas outras despesas pessoais e, é claro, ir às compras.

Na segunda semana, instalou-se numa quitinete semimobiliada que lhe tomava um terço da verba mensal. Para economizar, almoçava e jantava no bandejão, com menos de três reais. Em casa, tomava água da torneira. Na rua, só andava a pé. Dinheiro sempre contado. O objetivo era comprar uma câmera digital, um computador com monitor LCD e mais uns acessórios. “Isso em Cuba vale ouro, até porque não há.”

Pesos (in)convertíveis

Veio a Araraquara, primeiro, para apresentar-se à Polícia Federal. No carro, teve náusea. “Não estou acostumado a andar de automóvel.” Aqui, visitou a Unesp, fez cursos científicos e deu entrevistas a estudantes de jornalismo. Mas seus olhos brilharam quando entrou pela primeira vez num hipermercado. Surpreendia-se a cada corredor, a cada gôndola, com a diversidade de coisas, a limpeza das prateleiras e, principalmente, com a liberdade de poder escolher o que comprar.

Gostava de passear sem pressa pelas lojas. Olhava vitrines como uma criança vê brinquedo. Experimentava várias peças e, detalhista, chegava a abusar da atenção das vendedoras com sua inocência e simplicidade. Ele, que decifra moléculas e projeta medicamentos no laboratório, parecia incapaz de sair ileso de uma caminhada a sós pelo calçadão do comércio.

Não entendia bem a idéia de cheque, débito, cartão. Espantava-se com tantos telefones, carros e eletrodomésticos. Acostumado a racionamento de pão (um por pessoa ao dia), deliciou-se num rodízio de carne. Mas o que mais lhe impressionou foram pedintes e crianças de rua, um contra-senso, dizia, em meio a tantos bens, lojas e empresas. “Esse abandono humano, em Cuba, não existe.”

E era nessas horas que sua moeda mostrava a outra face. Filho de camponeses pobres, recebeu da Revolução Comunista a chance de estudar, formar-se e ter acesso a serviço de saúde. Como a maioria em seu país, conhece o melhor da literatura, filosofia e arte. Tem uma visão profunda, crítica e abrangente de história e geografia mundial. Opinião e idéias não lhe faltam.

Um dia, chegou a exaltar-se, em pé e com dedo em riste, denunciando o silêncio imposto na ilha a quem quiser informar ou opinar contra a ditadura, há cinco décadas. “Aquilo não é vida!” Depois, desculpou-se. “Estou falando aqui coisas que jamais imaginei que falaria.” Ao dizê-lo, era como se descobrisse um lado de si nunca antes revelado.

A melhor lembrança que levou do Brasil, em meio às malas e sacolas transbordando (até creme de leite ele carregou!), creio que foi a das rodas de samba. Nelas, tocou timba (não muito bem) e fez amigos. Spiga, Nandão, Miguel, Silmara e eu, que tive o prazer de hospedá-lo por duas semanas. Por e-mail, outro dia, perguntei como estava Cuba, agora sob a farda de Raúl Castro. “Tudo igual”, limitou-se a dizer. Eu entendi: seu e-mail continuava grampeado.

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

11/12/2008 às 23:58

Publicado em Reportagem

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