teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Napalms sobre a terra santa

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Aos cinco anos, ela conheceu a guerra e viveu, na pele, a história de seu povo

A bióloga e pesquisadora Muna Odeh já perdeu a conta de quantos amigos e conhecidos no Brasil vieram falar com ela desde que as primeiras bombas caíram na Faixa de Gaza, entre o Natal e o Ano Novo. Uns protestam, outros criticam, alguns querem saber algo. A maioria lamenta as crianças mortas às centenas na mais recente ofensiva israelense no menor e mais conturbado dos territórios que sobraram da Palestina.

Sua resposta vem geralmente acompanhada de um sorriso gentil e um olhar compenetrado, que revela muito menos do que esconde. Ela acha bom que não sejamos indiferentes à “história coletiva” de seu povo e, com fala suave, debate as causas políticas da invasão – “não tem nada a ver com religião” – e as perspectivas de paz – “não dois, mas um só estado em que se possa conviver”.

Muna conhece essa história literalmente de core, ainda que esteja sempre longe de dizer tudo o que pensa e sente quando vêm à tona suas lembranças. Os bombardeios, os escombros, os mortos, o sangue, as tantas crianças feridas… Para ela, essas memórias pessoais não são o mais importante do enredo. E também por isso prefere não ser vista e retratada como uma personagem.

Mas, em seu coração, Muna sabe que não há como separar de si a história de seu povo. Nascida e criada na cidade dividida e cosmopolita de Jerusalém, às portas da Cisjordânia, ela mantém forte a lembrança das cores, dos aromas e sons do velho mercado árabe, em cujas travessas estreitas e movimentadas costumava caminhar com sua mãe, Fátima, seu pai, Muhammad, e os irmãos.

Ainda criança, freqüentou uma escola católica e aprendeu francês. Gostava de filmes europeus e leu, em inglês, os dramas de Shakespeare. Muna também sorri ao lembrar-se das alamedas arborizadas e dos gatos que perambulavam pelos muros milenares da casa de sua prima, junto à Igreja da Natividade, em Belém, o berço do cristianismo. “Este era o meu pequeno playground.”

O bombardeio

Ela ainda não tinha completado seis anos de idade quando, na manhã do dia 5 de junho de 1967, Israel iniciou o ataque expansionista que ficaria conhecido como a Guerra dos Seis Dias, ocupando a Faixa de Gaza, o deserto do Sinai, as Colinas de Golã, além da parte oriental de Jerusalém e toda a Cisjordânia. Foi então que a história de Muna encontrou a história de seu povo.

Sua família estava em Jerusalém quando o ataque aéreo começou. Seu pai e avô ficaram numa casa, enquanto ela, sua mãe e irmãos – incluindo o pequeno Nasser, de oito meses – se refugiaram com dezenas de outras mulheres e crianças numa pequena caverna nas redondezas. Dali, elas viram, impotentes, quando uma bomba atingiu o local onde estava seu pai.

Muhammad morreu com o corpo despedaçado e espalhado entre os destroços. O avô ficou cego ao ser atingido por estilhaços. Minutos depois, o interior da caverna onde se escondiam Muna e o resto de sua família também foi atingido por uma carga de Napalm lançada pelo exército israelense, o mesmo tipo de arma altamente inflamável usada pelos Estados Unidos no Vietnam.

Em instantes, a explosão provocada pela bomba havia queimado a pele das mulheres e crianças abrigadas no local. Alimentos que traziam nas mãos foram desintegrados. A fumaça tóxica inalada corroia os pulmões. Muitos morreram na hora. Os sobreviventes tossiam, gritavam e corriam desesperados em todas as direções. Foi quando a pequena Muna, lutando por sua vida, se perdeu.

Sozinha, ela correu desenfreada por sobre a terra seca e arrasada pelas bombas, enquanto ouvia, para nunca mais esquecer, o som dos aviões e da artilharia que varria os ares. Durante a fuga, sentia seu pé esquerdo sangrar, ainda sem saber ao certo o que havia ocorrido. Só pensava em correr e salvar-se. E correu até cair no chão e perder completamente a consciência.

Muna acordou horas depois no leito de um hospital jordaniano, numa ala junto a dezenas de outras crianças feridas, muitas em estado grave. Seu pé, parcialmente mutilado, estava suspenso e envolto numa espécie de gaiola, com a ferida aberta e sério risco de infecção. Queimaduras ardiam em seu antebraço esquerdo. Como único alento, crianças jordanianas traziam flores e brinquedos em solidariedade.

O resgate

Do outro lado da fronteira, em Jerusalém, sua mãe, Fátima, aprendia a ser forte. Seu marido estava morto, seu pai havia ficado cego e, além de Muna, outro filho seu, de nove anos, havia desaparecido em meio ao bombardeio – ele seria encontrado dias depois por uma prima, em Jericó. Nasser, o bebê exposto à fumaça de Napalm, acabaria morrendo em seus braços, ao chegar ao hospital.

Um mês depois, quando Muna já se preparava para ser adotada pela família de um médico jordaniano, Fátima e o que restara de sua família ainda lutavam contra a idéia de que a menina estivesse morta. Sua foto foi espalhada pela região. Até que chegou a informação de que a garota havia sido vista em um hospital do outro lado da fronteira.

Fátima reuniu todas as forças que lhe restavam, deixou a casa e os filhos aos cuidados de sua mãe e seguiu para resgatar a filha. Com a guerra, a fronteira passara ao controle do exército de Israel. Palestinos só poderiam sair para não mais voltar. Ela arriscou. Deu dinheiro a um motorista para levar-lhe até o hospital indicado e ajudar-lhe a retornar clandestinamente. O tempo era curto e não havia nenhuma garantia de sucesso.

Mas deu certo. No hospital, ela encontrou Muna, abraçou-a, pegou-a no colo e saiu com pressa. Grávida do marido que havia sido morto dias antes, Fátima cruzou nadando, no breu da noite, a fronteira pelo Rio Jordão. Muna foi levada no colo, por sobre as águas, pelo homem que as ajudou. Seu pé ainda sangrava e, quando deixava correr uma lágrima, era repreendida pela mãe: “Não chore, Muna. Nós vamos pra casa.” No caminho, Fátima abortou.

Pouco a pouco, o tempo, o afeto da família, o sentimento de coletividade e, sobretudo, a força e a determinação de sua mãe trataram de devolver a pequena garota palestina à sua vida normal. Aos nove anos, entendeu que os dedos de seu pé esquerdo nunca mais cresceriam. Mas nem por isso deixou de jogar basquete, brincar com outras meninas e freqüentar o clube da Associação de Jovens Cristãos, a YMCA, em Jerusalém.

Aos dezessete anos, deixou Jerusalém para estudar línguas em Paris, na França. Um ano depois, foi a Washington, nos Estados Unidos, onde se graduou em biologia, engrossando as estatísticas que colocam os palestinos entre os povos de maior escolaridade do mundo – são 27 universidades para uma população de 3,5 milhões de pessoas. “Nossas terras foram tomadas”, justifica, “mas o conhecimento é algo que ninguém pode tomar de você.”

O retorno

Muna voltou à Palestina em 1984 para assumir seu primeiro emprego, na Universidade de Birzeit, próximo à Ramallah, na Cisjordânia. Desde então, tem ajudado a promover a saúde e a cidadania de mulheres e a formar lideranças comunitárias em países em desenvolvimento. Suas atividades e estudos a levaram a assumir um posto na Universidade das Nações Unidas e a atuar em países como Jordânia, Inglaterra e, finalmente, no Brasil.

Em São Carlos, cidade onde mora e trabalha desde 1993, Muna fez um trabalho etnográfico com 18 jovens residentes na favela do Jardim Gonzaga. Através deles, ela conheceu um pouco dos valores e do cotidiano que envolvem as periferias brasileiras. Através dela, eles receberam a oportunidade de estudar inglês e computação, aumentando as chances de conseguirem um emprego.

Aqui, Muna criou suas duas filhas: Fátima Maria, hoje com 14 anos, e Jamila, de 13. Pouco antes do início dos ataques à Faixa de Gaza, em dezembro, eu conheci Fátima, sua mãe, em visita ao Brasil. Ela ainda aguarda um momento adequado para voltar à sua Jerusalém e diz que não conceberia viver longe dali. Muna esboça um sorriso gentil, mas pensa antes nas filhas ao ser confrontada com a idéia de regressar. “Quem sabe um dia…”

Aos amigos e conhecidos que lhe perguntam sobre a atual situação em Gaza, ela também gosta de oferecer links para textos internacionais que podem ajudar a entender melhor o problema. Num deles, Majeda Al-Saqqa, uma jovem mãe palestina do povoado de Khan Younes, conta em um diário na internet como distrai os filhos à noite contando em voz alta, uma a uma, as bombas que caem sobre a cidade. Wael, um dos meninos, lhe pergunta o que é a guerra e o porquê das bombas. Ela não sabe o que responder.

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

04/02/2009 às 20:00

Publicado em Reportagem

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