teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Projeto: Condições e estratégias de enunciação no jornalismo científico

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Título: Condições e estratégias de enunciação no jornalismo científico: um estudo sobre o percurso de informações especializadas acerca da mente e do cosmos

Resumo do projeto: O projeto aborda a referenciação de informações científicas no discurso jornalístico. Serão examinadas as condições de enunciação e a formatação lingüística dos enunciados, tendo como corpus de estudo textos de divulgação da neurobiologia e da cosmologia. Levantam-se hipóteses sobre a geração de percepções de progressividade das explicações científicas e a insuficiência de contextualização sobre as bases metodológicas dos saberes referenciados.

1.      Introdução

Questões relacionadas à divulgação das ciências têm sido alçadas, nas últimas décadas, a uma posição central no debate acerca do papel desempenhado pelos meios de comunicação no processo de democratização do conhecimento. Entende-se que o saber acumulado nas diversas esferas de produção teórica e experimental não deve permanecer restrito ao universo simbólico condicionado pelos códigos de especialidade próprios ao campo científico (BOURDIEU, 1983, p.123), sob pena de perpetuar-se um modelo excludente de desenvolvimento social e humano, ao mesmo tempo em que se amplia a dependência das sociedades em relação ao conhecimento e à geração de tecnologias (FOUREZ, 1995, p.222).

De fato, é crescente a projeção das ciências no discurso jornalístico[1], assim como se multiplicam os estudos acadêmicos que analisam diferentes aspectos dessa prática[2]. Algumas questões, no entanto, se impõem. Até que ponto – por exemplo – o discurso de divulgação tem sido eficaz na geração de uma percepção pública crítica e articulada com relação às temáticas cientificas? Ou ainda: quais valores sobressaem a partir das interpretações e releituras que condicionam o processo de referenciação do discurso especializado? Como se dá o trâmite das informações ao longo das sucessivas codificações e decodificações que caracterizam a atuação das instâncias midiáticas? Quais elementos conceituais se perdem e quais são incorporados nesse processo?

A pesquisa proposta aborda, neste sentido, o problema da referenciação de informações científicas no discurso jornalístico a partir de um exame das condições de produção de enunciados midiáticos de especialidade e das configurações lingüísticas por eles assumidas ao longo do processo de divulgação. Discute-se de que forma e em que medida as estratégias discursivas operadas na prática do jornalismo científico determinam efeitos de construção de sentido de realidade, consideradas as particularidades do processo de enunciação e da formatação lingüística dos enunciados. Como hipótese, é proposto que essas significações geram uma falsa percepção pública de progressividade das explicações científicas devido à insuficiência de contextualização sobre as bases metodológicas dos saberes referenciados.

No desenvolvimento do trabalho serão analisados textos de jornalismo impresso sobre dois campos científicos que assumem contornos estratégicos para a compreensão da natureza do homem e do universo: a neurobiologia, cujas pesquisas mais recentes fornecem dados inéditos sobre os processos sensitivos que determinam a percepção da mente e da consciência humana[3], e a cosmologia, responsável por entendimentos inovadores sobre os processos físicos da matéria e da energia no tempo e no espaço[4].

A relevância desse estudo decorre da necessidade de buscar-se parâmetros de avaliação sobre a eficácia da comunicação jornalística no processo de socialização do conhecimento científico. Nesse sentido, tanto a neurobiologia quanto a cosmologia, apesar de popularmente vistas como áreas herméticas e distanciadas do cotidiano, reúnem explicações cruciais ao entendimento do homem em si e do mundo, sendo particularmente capazes de conferir inteligibilidade às leis físico-químicas a que a própria existência está condicionada.

No âmbito do jornalismo, verifica-se a ausência de discussões teóricas que relacionem essas esferas científicas à prática comunicacional, dada a predominância de temas com maior impacto sócio-político e tecnológico nos estudos acadêmicos voltados à mediação pública das ciências[5]. Ao mesmo tempo, revela-se um desconhecimento generalizado da população, e dos próprios jornalistas, com relação ao funcionamento do sistema cognitivo humano e às circunstâncias do universo conhecido.

A originalidade dessa proposta frente aos estudos da linguagem da divulgação cientifica deve-se, sobretudo, a uma abordagem metodológica que procura aprofundar a reconstituição do percurso das informações científicas ao longo das instâncias que constroem a enunciação. São também raras, na bibliografia do tema, as referências específicas aos modelos lingüísticos que, em plano lexical, narrativo e estilístico, condicionam a eficácia desses enunciados na construção de sentidos de realidade, assunto que se procura, nessa pesquisa, esclarecer.

 

2.      Fundamentação teórica

O projeto articula teorias relacionadas ao jornalismo e às ciências de linguagem de forma a examinar o processo de referenciação de informações científicas no discurso de divulgação. Nesse sentido, o trabalho constitui uma continuidade da pesquisa de mestrado do autor, que abordou processos de reformulação lingüística e de atribuição de significados de valor à temática dos alimentos transgênicos no discurso de veículos de jornalismo impresso[6].  De um ponto de vista de teórico, busca-se, assim, um aprofundamento de estudos relacionados aos processos de significação, de forma a estabelecer-se instrumentos metodológicos de análise das estruturas lingüísticas e dos efeitos de sentido provocados pelo discurso de divulgação científica.

A bibliografia tradicional que trata especificamente do jornalismo científico, porém, tem sido considerada insatisfatória na exploração dessas vertentes de fundo[7]. Parece existir, ainda, e apesar de recentes iniciativas bem sucedidas[8], uma lacuna na aplicação de conhecimentos teóricos associados às ciências da linguagem à cobertura das ciências em campo jornalístico, o que aponta para a necessidade de se estreitar os vínculos entre essas áreas[9].

Cabe ressaltar que alguns dos principais conceitos utilizados em reflexões sócio-lingüísticas sobre o jornalismo científico remontam à literatura francesa, e mais precisamente à idéia de vulgarization, entendida como a adaptação discursiva de um conjunto de conhecimentos especializados de forma a torná-los acessíveis a um leitor não especializado (JACOBI, 1987, p.21).

Note-se que ao buscarem atender a essa demanda de transmissão de informações, os veículos jornalísticos operam um discurso de legitimação de si próprios enquanto órgãos que devem “concorrer para a formação do cidadão”, rompendo as barreiras de “complexidade” e de “opacidade” que se interpõem à comunicação sobre ciência. Com isso, tendem a construir em torno dos temas científicos um “campo de inteligibilidade próprios aos meios de informação”, buscando “a verificação, a contradição, a comparação das fontes” para garantir a “transparência” e, assim, a credibilidade da informação[10].

Na pratica jornalística, esses processos de referenciação organizam-se, principalmente, em torno da rotina de produção das redações, condicionada por fatores que conferem à enunciação uma dimensão ao mesmo tempo coletiva e dinâmica. Austin introduz a idéia de “condições de enunciação” ao sustentar que “os enunciados não possuem um sentido em si, mas um sentido que depende de algo mais – a enunciação – e que é na relação do enunciado com esse algo mais que podem ser avaliadas as enunciações apropriadas ao não”.[11]

Essas condições de enunciação são fortemente marcadas, no discurso jornalístico, pelo tratamento dispensado à informação científica na instância mediadora, ou pelo “modo como o informador decide relatar os fatos selecionados, em função do alvo e dos efeitos”.[12] Para isso, concorrem fatores de ordem interna ao processo lingüístico (resultado da combinação textual articulada entre os planos do enunciado e da enunciação) e de ordem externa (referentes aos elementos situacionais que condicionam a significação dos fatos de linguagem)[13], que se associam na constituição do percurso das informações científicas envolvidas no trâmite da divulgação.

Note-se, nesse sentido, que as redes sócio-lingüísticas envolvidas na estruturação de conceitos e acontecimentos pertinentes ao ambiente científico (embora não só a ele) resultam em um efeito de significação pelo qual se constrói uma percepção acerca da realidade, percepção que se configura como um artifício de inteligibilidade gerado em relação à existência humana no mundo e em si mesmo. Desse modo, o “efeito de realidade” – produzido não apenas pelos jornalistas, mas também sobre eles, num processo de retro-alimentação – é produto das estratégias discursivas de verediccão associadas à composição narrativa e argumentativa estabelecidas pelos recursos textuais e imagéticos que compõem o discurso jornalístico (VAN DIJK, 1985, p.72).

É também possível reconhecer nesse processo de “construção do real” um efeito de sentido relacionado à redução da complexidade e de simplificação da “imagem do mundo”, isto é, um processo de estereotipificação. Dessa forma, “para os receptores, que não têm acesso primário à maioria dos assuntos noticiados, esse mundo construído torna-se uma realidade ‘verdadeira’”[14], ainda que sua consistência resida unicamente em hipóteses teóricas ou resultados parciais obtidos e divulgados como produto de investigações científicas.

Dessa forma, a inteligibilidade da transmissão depende das estratégias pelas quais se constroem os enunciados de divulgação a partir das escolhas discursivas operadas pelo divulgador – escolha, por exemplo, entre o dito e o não dito, entre o explicito e o implícito, entre a polissemia e a sinonímia, entre os valores referenciais e enunciativos. É isso o que determina a construção do sentido dos enunciados por meio de processos de estruturação lingüística, pelos quais se identifica, descreve e explica os conceitos referenciais, e processos de relacionais de linguagem, pelos quais se faz compreender e interpretar a realidade referida[15]. Têm-se, assim, as bases teóricas pelas quais é possível investigar as condições de produção, a formatação lingüística e os efeitos de sentido relacionados ao discurso de divulgação científico, como propõe o projeto.

 

3. Objetivos

Os objetivos da pesquisa podem ser apresentados considerando suas orientações gerais e especificas, concernentes ao foco do estudo, e teóricos e práticos, concernentes à natureza de suas contribuições, conforme indicados a seguir:

 

a)    Gerais: contribuir para o estabelecimento de uma reflexão crítica acerca da divulgação jornalística das ciências e das condições de produção de seu discurso; estudar o processo de referenciação de informações científicas no discurso jornalístico.

b)    Específicos: reconstituir o percurso de informações científicas desde de suas fontes geradores e através das instancias midiáticas; examinar as condições de enunciação que determinam os critérios de codificação dessas informações em campo midiático; analisar os efeitos de sentido gerados a partir de estratégias discursivas operadas em jornalismo científico; estabelecer parâmetros de classificação dos modelos lingüístico-textuais utilizados em enunciados de divulgação científica; testar hipóteses acerca da geração de percepções públicas relacionadas à progressividade das explicações científicas e à insuficiência das contextualizações metodológicas no discurso de divulgação.

c)    Teóricos: contribuir para o estabelecimento de parâmetros metodológicos baseados nas ciências da linguagem e aplicados ao estudo da divulgação científica; aprofundar a compreensão sobre os processos de significação relacionados ao jornalismo de ciências e a forma pela qual são geradas percepções acerca da realidade.

d)    Práticos: reunir, organizar e disponibilizar informações sobre as rotinas de produção de conteúdo jornalístico sobre as ciências, por meio de entrevistas, questionários e observações realizadas em pesquisa de campo; oferecer referência a jornalistas profissionais para o aprimoramento da prática de divulgação científica; oferecer referências para uma leitura crítica dos enunciados de jornalismo científico.

 

É possível formular, ainda, as seguintes questões, a serem discutidas a partir do exame das estruturas de significação que caracterizam a abordagem dos temas citados no discurso jornalístico: Quais formas de interpretação do conhecimento científico influenciam ou condicionam o discurso jornalístico de divulgação? A que concepções da ciência se associam essas interpretações? Como elas se manifestam no discurso jornalístico? É pressuposto deste projeto de pesquisa que o desenvolvimento dessas questões dependa de uma análise que associe as estruturas lexicais e narrativas do discurso jornalístico de divulgação científica aos processos de atribuição de interesse e de juízos de valor que concorrem à sua construção. Um estudo que considere as concepções da ciência como bases fundadoras da dimensão interpretativa do jornalismo científico seria, em nossa visão, de particular eficácia para o exame das formas de seleção e angulação temática, bem como dos artifícios de argumentação e persuasão incidentes no noticiário.

 

 4.    Metodologia

Para a realização da pesquisa é proposta, como estratégia metodológica, a sistematização de conhecimentos referentes ao jornalismo, às ciências da linguagem e à filosofia das ciências, de forma a fazer com que se reatem os elementos pelos quais interagem as lógicas simbólicas dominantes nos campos da ciência e do jornalismo, esferas formadoras do discurso de divulgação.

Considera-se, a princípio, a necessidade de um reconhecimento estatístico sobre as formas de ocorrência e inserção das temáticas científicas selecionadas (neurobiologia e cosmologia) em segmentos do discurso jornalístico, tendo em conta as fontes de informação utilizadas e os subdomínios temáticos abordados. Serão elaboradas fichas de mapeamento segundo tópicos de interesse, de forma a permitir uma análise de itens como freqüência, destaque, hierarquia editorial e procedência das matérias. Os resultados seriam representados em gráficos de dimensionamento quantitativo.

A análise das condições da enunciação em jornalismo científico será desenvolvida a partir de uma reconstituição do percurso das informações especializadas envolvidas nas cadeias de significação que compõem as instâncias jornalísticas de mediação. Procura-se identificar, nesse sentido, os processos sucessivos de codificação/decodificação operados sobre conceitos e dados referenciais desde suas fontes geradores em ambiente científico até os estágios finais de edição, conforme o sintetizados no esquema a seguir:

 

  • Sensibilização cognitiva, criação de teorias
  • Explicações e predições lógico-dedutivas
  • Relato de resultados experimentais
  • Interpretação e releitura da teoria
  • Disseminação entre pares
  • Divulgação em instâncias midiáticas
    • Pauta
    • Pesquisa
    • Entrevista
    • Checagem
    • Redação
    • Revisão técnica
    • Revisão de estilo
    • Editoração gráfica
    • Hierarquização
    • Edição final
    • Veiculação
    • Repercussão

 

A formatação da informação científica pelas instâncias midiáticas será examinada a partir dos valores e critérios que condicionam a pauta, tais como atualidade, ineditismo, credibilidade das fontes e potencial de geração de impactos simbólicos e sócio-econômico. Este exame tem o objetivo de verificar, por exemplo, que elementos do discurso científico referencial são preservados e que elementos são descartados à medida que o trato da informação sofre influência das lógicas que condicionam a configuração midiática dos discursos.

Por extensão, a pesquisa deverá lançar um exame também específico sobre a formatação lingüística dos textos de divulgação, de forma a identificar modelos lexicais, narrativos e estilísticos adotados para dotar as informações de especialidade de uma espécie de inteligibilidade própria ao campo jornalístico. A partir de um contraste com textos, esquemas e glossários científicos referenciais, será avaliado em que medida essas operações de reformulação lingüística sustentam significações conflitantes com os efeitos de sentido próprios aos conceitos e às explicações de referência.

Ao examinar estratégias textuais de transposição do obstáculo lingüístico da divulgação científica, Nóbrega distingue dois recursos discursivos principais: o de substituição lexical – usado para generalizar-se, em plano vocabular, a terminologia específica do conhecimento a ser divulgado – e o de narrativização – meio de explanação sobre processos científicos em níveis mais amplos do contexto enunciativo. Este trabalho considera cada um deles separadamente.

A reformulação em nível lexical ocorre, basicamente, a partir da substituição de termos de especialidade, suportes de conceitos específicos do campo científico, por um vocabulário mais genérico, próprio ao domínio cognitivo do público da divulgação. Esses aspectos semânticos em redes lexicais de significação envolvem, por exemplo, relações de sinonímia, similitude ou similaridade, enquanto níveis de identificação significativa, conforme classificados por Lyons e Jakobson.

A aplicação dessas relações ao campo operacional da divulgação científica é formulada por Jacobi (1987), com uma abordagem fundada na idéia de termos-pivô, isto é, palavras ou expressões sintagmáticas da linguagem científica em torno das quais incidem os mecanismos de reformulação. Entre os mecanismos dessa mobilidade terminological estão: dupla-denominação, ou  substituição por um termos similar; co-referência, ou emprego de uma termo equivalente em repetições no enunciado; definição, ou expressão do significado; e paráfrase, como explicação do termo-pivô por uma expressão tida como equivalente.

Já as estratégias de narrativização na divulgação científica, segundo Nóbrega, podem ser consideradas procedimentos discursivos variantes das estratégias de comunicação científica em âmbito didático. Sua finalidade seria expor o sentido processual e lógico do fenômeno científico, buscando para isso formas textuais para se “seriar problemas”, “seqüenciar operações”, “projetar esquemas explicativos” e “ilustrar os fenômenos com recursos visuais que con- cretizam objetos abstratos referidos no texto”. Ainda segundo a autora, “todos esses elementos são recursos que não se encontram necessariamente no macrotexto científico de referência” e devem ser entendidos como “estruturas de comunicação ora eficazes ora improdutivas”, conforme o rigor conceitual que mantém sobre discurso científico.

Como aponta Nóbrega, o discurso científico não faz referência direta à realidade acessível aos sentidos de um observador comum; trata-se antes “de um diagrama explicativo, de uma operação formalizadora do real, segundo as preocupações do observador” especialista. Ou seja, “[no discurso científico] o real é menos compreensível que cognitivamente analisável”, e esse discurso, em vez de se referir ao que é observável, “limita-se a selecionar um número limitado de pontos (marcas, marcos) entre os quais tece relações estáveis e lógicas” (ibidem).

Decorrem dessa condição as características de impessoalidade, neutralidade emotiva, sistematização terminológica, a forma escrita e a já citada precisão semântica do discurso científico, conforme atribuições de Jacobi (op.cit., pág. 60 a 64). Nesse ponto cumpre papel fundamental uma série de recursos discursivos de narrativização, tais como a reconstituição histórica da obtenção do conhecimento, a personalização das realizações científicas, a dramatização dos processos de pesquisa, o estabelecimento de relações analógicas com fenômenos cotidianos e saberes de senso comum, bem como a interpretação do progresso científico por meio da atribuição de valores não-cognitivos associados a concepções mantidas em torno da idéia de progresso científico (Lacey, 1998).

Serão analisadas, com isso, duas hipóteses: 1) a de que o efeito de sentido produzido pelo conjunto desses enunciados jornalísticos tende a segregar informações contextuais relacionadas às bases metodológicas que, em campo científico, conferem legitimação às proposições decorrentes da investigação teórica e experimental; e 2) a de que esse efeito de sentido cria uma percepção pública de progressividade do potencial explicativo das teorias científicas divulgadas, noção discutível no âmbito da filosofia das ciências e relacionada a uma concepção teleológica da atividade científica.

Como corpus de estudo, é proposta a seleção de textos oriundos de acervo de revistas especializadas de jornalismo científico mantido pelo autor, devidamente catalogado e conservado em Hemeroteca pessoal. O acervo é composto de 512 exemplares da revista Scientific American (edições internacional e nacional, em período contínuo, entre 1956 e 2009), 164 exemplares da revista National Geographic (edições internacional e nacional, em períodos diversos) e 103 edições da revista SuperInteressante (edição nacional, períodos diversos). É facultada a transferência da referida Hemeroteca para espaço próprio da Universidade para fins de facilitação das consultas.

 

5. Cronograma das atividades de pesquisa

 

Atividades 2011’ 2011’’ 2012’ 2012’’ 2013’ 2013’’
Estudo de obras referenciais X X X X    
Visitas a grupos de pesquisa X X        
Reunião de textos do corpus X X        
Leitura inicial do corpus X X X      
Realização de entrevistas X X      
Visitas a redações de revistas X X      
Leitura analítica do corpus X X X  
Redação: relatório de resultados   X X
Disseminação de resultados   X

 

6. Considerações finais

É certo que as práticas de divulgação científica, embora tenham evoluído consideravelmente nos últimos anos, sobretudo em diversidade de publicações, ainda aguardam contribuições que possam tratar, de forma mais ampla e profunda, de problemas como os que rondam seus processos de significação. Nesse sentido, a expectativa com relação ao estudo proposto é a de contribuir para o estabelecimento de uma visão problematizada, ancorada nas ciências da linguagem, sobre as condições de enunciação e os efeitos gerados pelo discurso jornalístico na percepção pública de ramos destacados da atividade científica. De um ponto de vista particular, espera-se, com isso, dar seqüência a uma série de atividades teórico-experimentais que temos mantido, ao longo da última década, em torno do assunto.

Vale lembrar que o fluxo contínuo de informações estabelecido entre o campo científico e essas esferas midiáticas, devido em grande parte ao interesse dos próprios pesquisadores em apresentar suas contribuições à cena pública, e assim concorrer por financiamento e prestígio, não tem constituído garantia de uma comunicação comprometida com os interesses maiores da sociedade, ligados à urgência histórica de socialização do conhecimento, processo que, em tese, deveria começar justamente pela compreensão da natureza da mente humana e das circunstâncias de sua existência no cosmos, bases que são de todas as demais compreensões.

Esses são desafios que têm seu âmago na linguagem, na forma com que se articulam pensamentos e expressões de significado. Perseguir esses desafios por meio de uma abordagem de textos jornalísticos de divulgação científica não deixa de ser uma forma, ainda que tímida e limitada, de contribuir na busca por respostas para questões que há milênios tormentam e maravilham a humanidade: quem somos, para onde vamos, de onde viemos?

 

7. Bibliografia

BARTHES, Roland. Análise estrutural da narrativa: pesquisas semiológicas. Petrópolis: Vozes, 1973.

BELDA, Francisco Rolfsen. Alimentos transgênicos e imprensa: um estudo do discurso jornalístico de divulgação científica. Escola de Comunicação e Artes – Universidade de São Paulo, 2003. Dissertação de Mestrado.

BOURDIEU, Pierre. “O campo científico”. In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p.122-155.

FOUREZ, Gerard. A construção das ciências: introdução à Filosofia e à Ética das ciências. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

HEGENBERG, Leônidas. Explicações científicas: introdução à filosofia da ciência. São Paulo: Cultrix, 1973.

JACOBI, Daniel. Textes et images de la vulgarisation scientifique. Berne: Lang, 1987.

KUNH, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.

LACEY, Hugh. Valores e atividade científica. São Paulo: Discurso Editorial, 1998.

LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru: EDUSC, 2001.

LAUDAN, Larry. Progress and its problems: toward a theory of scientific growth. Berkley, Los Angeles, London: University of California Press, 1978.

NÓBREGA, Maria do Socorro. A divulgação do discurso científico: orientação de pesquisa. [Material didático da disciplina “Ciência e mídia”]. Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo, 2001. Não publicado.

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. 15. ed. São Paulo: Cultrix, 2000. Cap. 1-5.

POPPER, Karl; ECCLES, John. O eu e seu cérebro. Campinas: Papirus; Brasília: Ed. UnB, 1991

REQUEPLO, Philippe. Le partage du savoir: science, culture, vulgarisation. Paris, Editions de Seuil, 1974.

VAN DIJK, Teun. (Ed.) Discourse and Communication. New Approaches to the Analysis of Mass Media. Berlin, New York: Walter de Gruyter, 1985.

 

ANEXO

Sumário de pesquisa

 

1)    Referenciação de informações científicas no discurso jornalístico

  1. Leis, teorias e experiências como construções de sentido
  2. Concorrência de saberes de conhecimento no espaço midiático
  3. Legitimação das fontes e justificação do interesse público
  4. Linguagem: graus de abstração, densidade e subjetividade
  5. Estratégias discursivas e seus efeitos de significação

 

2)    A enunciação: condições de produção em jornalismo científico

  1. Funcionamento e inserção social das instâncias midiáticas
  2. Critérios de seleção da pauta e os valores condicionantes
  3. Percurso da informação científica no processo de divulgação

 

3)    Os enunciados: formatação lingüística dos textos de divulgação

  1. Plano lexical: formulação de conceitos
  2. Plano narrativo: explicações e predições
  3. Plano estilístico: sensibilização estética

 

4)    Estudos de caso: a cosmologia e a neurobiologia no discurso midiático

  1. Contextualidade sócio-metodológica da informação científica
  2. Recursos literários na construção de sentido sobre o real
  3. Explicações teleológicas e percepção de progresso científico

 



[1] A proliferação de publicações de divulgação científica e a ampliação do espaço e do tempo destinado à ciência nos veículos de jornalismo revelam-se, por exemplo, em reportagem publicada pela revista Pesquisa Fapesp (“Deu no Jornal Nacional: mídia amplia espaço de ciência e tecnologia e lança uma série de novos produtos nos próximos meses”, junho de 2004, n.100, p.48-53).

[2] Destaca-se a produção da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), em São Bernardo do Campo, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), entre outros.

[3] Ver, sobre o assunto, as obras de Ned Joel Block, Owen Flanagan e Güven Güzeldere (Orgs), The nature of consciousness: philosophical debates, MIT Press, 1996, e de David Chalmers, The conscious mind: in search of a fundamental theory, Oxford University Press, 1997.

[4] Vale citar, aqui, a obra seminal de divulgação científica do astrônomo Carl Sagan, Cosmos. Random House, New York, 1980

[5] A predominância de abordagens de cunho sócio-político nas discussões sobre o jornalismo científico é identificada por Wilson da Costa Bueno, “Decifrando o DNA da divulgação científica”. In: ENCONTRO BRASIL-GRÃ-BRETANHA SOBRE PLANTAS TRANSGÊNICAS: CIÊNCIA E COMUNICAÇÃO, 1. Anais… Curitiba: Governo do Paraná/The British Council/CIPAR, 2001.

 

[6] Dissertação “Alimentos transgênicos e imprensa: um estudo do discurso jornalístico de divulgação científica”, defendida em 23 de outubro de 2003, na Escola de Comunicação e Artes da USP, sob orientação da Profa. Dra. Maria do Socorro Nóbrega.

[7] As publicações mais difundidas (como as obras de Manuel Calvo Hernando, Warren Burkett e Sharon Friedman) ainda são as que se voltam à instrução de profissionais a partir da exposição de “desafios” práticos da divulgação científica e do relato de experiências bem ou mal sucedidas do jornalismo científico.

[8] Apontam nesse sentido trabalhos diversos apresentados durante a 3a Conferencia Mundial de Jornalismo Científica, na Universidade do Vale do Paraíba (Univap), em São José dos Campos, em 2002, além de um conjunto de artigos científicos publicado em uma edição especial intitulada “Divulgação cientifica” do periódico Ciência e Ambiente, n.23, 2002, editado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

[9] Esse trabalho vem sendo realizado, na ECA-USP, pela Profa. Dra. Maria do Socorro Nóbrega, por meio da disciplina “Ciências e Mídia”, ministrada no programa de pós-graduação do Departamento de Jornalismo e Editoração. Ver, por exemplo, o conjunto de fichas intitulado A divulgação do discurso científico, material didático ainda não publicado utilizado como orientação de pesquisas em torno da disciplina.

[10] NÓBREGA, Maria do Socorro. A divulgação do discurso científico: orientação de pesquisa. [Material didático da disciplina “Ciências e Mídia”, 2001]

[11] AUSTIN, 1962 apud CHARAUDEAU, Patrick. “Para uma nova análise do discurso”. In: CARNEIRO, Agostinho Dias (Org.). O discurso da mídia. Rio de Janeiro, Oficina do autor, 1996.

[12] NÓBREGA, Maria do Socorro. op. cit..

[13] CHARAUDEAU, Patrick. op.cit., loc. cit.

[14] KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo: norte e sul. 2.ed. São Paulo: Edusp, 2001. p.246-247.

[15] NÓBREGA, Maria do Socorro. op. cit..

 

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

21/03/2012 às 11:31

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