teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Reflexões sobre jornalismo especializado

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Reflexões sobre o jornalismo de economia e agronegócio, considerando suas características, condições, circunstâncias e lógicas científicas e midiáticas.

  1. A comunicação da agroeconomia envolve veículos, públicos e conteúdos extramamente diversos, sendo comumente designada como divulgação, difusão, disseminação e outros termos. No jornalismo, ela se dá como mediação crítica dos discursos e acontecimentos referentes aos fatos e conhecimentos desse campo.
  2. Há vários interesses relacionados à projeção da agroeconomia no jornalismo. Há interesse público, do público, dos pesquisadores, das instituições acadêmicas, das empresas da cadeia do agronegócio, dos governos e órgãos financiadores e dos publicadores. Todos esses interesses são mediados a critério do interesse jornalístico.
  3. O interesse público no jornalismo especializado visa a formação de uma opinião bem informada e com acesso facilitado a explicações, interpretações, compreenssões, argumentos, entre outras expressões de conhecimento racionalmente justificável sobre temas, conceitos e debates que afetam as pessoas, a sociedade e o mundo.
  4. O interesse do público no jornalismo especializado visa a obtenção de informação simples e confiável sobre acontecimentos, personagens, resultados de pesquisa e tendências de pensamento que esclareçam problemas correntes, influenciem o comportamento e as condições de vida ou revelem novos conhecimentos e descobertas.
  5. Os demais interesses relacionados ao jornalismo científico tendem a ser representados por órgãos e profissionais que atuam diretamente ou indiretamente para a condução ou o condicionamento das atividade de comunicação, tendo por instrumento suas próprias lógicas simbólicas e por critério suas próprias conveções e objetivos.
  6. A atração e retenção de interesse do público para o jornalismo agroeconômico se dá em vários de níveis de captação de audiência ou leitorado, desde o interesse geral, por curiosidade, até segmentos atentos e cativos que, por hábito ou necessidade, procuram, adquirem, consomem e participam ativamente da publicação.
  7. A atração do interesse do público para um veículo de comunicação se dá, sobretudo, em função de oportunidade, percepção de credibilidade da marca ou recomendação. A rentenção do interesse do público se dá, sobretudo, em função do estabelecimento de vínculos de utilidade, interação, obtenção de vantagem ou admiração intelectual.
  8. Reportagens sobre agronomia são geralmente construídas com base no seguinte modelo: apresentação de solução de problema ou novo conhecimento; citação de instituições e personagens; contextualização do problema; processo de pesquisa; repercussão entre leigos e especialistas; implicações, aplicações e desdobramentos dos resultados.
  9. Na ótica dos jornalistas, os conflitos informativos em sua relação com fontes especializadas devem-se, principalmente, ao hermetismo da linguagem do especialistas,  à insuficiência de pesquisa e planejamento da pauta e à urgência dos prazos de publicação.
  10. Na ótica dos especialistas, os conflitos informativos em sua relação com jornalistas devem-se, principalmente, ao generalismo e superficialidade da formação dos repórteres, a seus critérios de atribuição de interesse, ao caráter criticista de sua mediação comunicativa e à impossibilidade de revisão do conteúdo editado.
  11. Na ótica do público, os conflitos informativos em sua relação com a cobertura de agroeconomia devem-se, principalmente, à aparente desvinculação entre os acontecimentos, os temas e a linguagem de uso corrente em seu cotidiano e o discurso em que são apresentados fatos, problemas, personagens e experiências na área .
  12. O compromisso jornalístico de mediação crítica de informações é dificilmente compatível com o formalismo e a reverência no tratamento de temas complexos e personagens ilustres da agroeconomia. Esse compromisso depende, sobretudo, da independência informativa do jornalista em relação a cada uma de suas fontes.
  13. Nenhum conhecimento especializado deve ser representado ou apreciado em caráter absoluto ou peremptório. Considerando que sua validade decorre do método empregado em sua produção, bem como dos raciocínios inferidos em seu favor, todo conhecimento divulgado deve ter suas fontes e processos situados, esclarecidos e comparados.
  14. A fragmentação dos temas agroeconômicos transformados em pauta jornalística não deve impedir sua abordagem em perspectiva plural e interdisciplinar, considerando interfaces políticas, economias, éticas, sociais, ambientais, de modo a refletir a complexidade de suas implicações e a natureza diversa dos fatos e conhecimentos a elas referidos.
  15. Exposto à opinião pública, um tema científico, de saúde ou meio ambiente passa a incorporar expectativas extrínsecas a seu método convencional de investigação, considerando o descompasso entre demandas urgentes da sociedade e o processo de pesquisa. A especulação tende a ser usada como artifício para compensar essa tensão.

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

01/09/2010 às 7:35

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