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Francisco Rolfsen Belda

Remédio não traz felicidade

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Descontrole e automedicação de antidepressivos e estimulantes preocupa

O uso de medicamentos para tentar resolver problemas como depressão, ansiedade, insônia, mau humor ou falta de atenção tem levado muitos pacientes a um beco de difícil saída. O consumo prolongado e às vezes desnecessário de remédios que afetam o sistema nervoso central pode, além de levar à dependência, mascarar as causas originais do transtorno, dificultando o tratamento.

Caso típico é o do paciente que procura o consultório psiquiátrico mais interessado em obter uma receita de calmante do que em investigar o motivo de sua inquietação. “Há uma ideia enganosa de que o remédio vai resolver o problema e trazer felicidade”, aponta o psiquiatra e psicoterapeuta Ivan Mourão, chefe dessa área médica no Hospital São Luiz, também graduado em Filosofia

Um efeito colateral do que já se reconhece como um fetiche pelo remédio é a disseminação da automedicação. Muitos escolhem e usam suas “pílulas da felicidade” por conta própria, ou sob orientação de amigos, diante de um transtorno qualquer. “Cansei de receber pacientes dizendo que tinham síndrome do pânico quando na verdade não tinham, e ainda usavam o medicamento errado”, diz o psiquiatra Miguel Roberto Jorge, diretor do curso de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS) para assuntos de psiquiatria, saúde mental e abuso de substâncias medicamentosas.

Ele diz que o uso de psicotrópicos como antidepressivos, tranquilizantes e estimulantes sem acompanhamento médico, ao invés de solução, costuma se tornar um problema a mais. “Tomar um comprimido no meio de uma crise, tudo bem. Mas nenhum medicamento é inócuo, e a automedicação constante pode trazer danos sérios ao organismo”, alerta. O risco varia em função do tipo de remédio, da dose consumida e  os efeitos sobre a pressão arterial, o intestino, o ritmo cardíaco e o sono. “Quadros emocionais mais leves, que não afetam a rotina da pessoa, não necessitam de medicação. Em outros casos, um remédio indicado pelo médico pode e deve ajudar. Mas a química não vai resolver todos os problemas de natureza emocional”.

Hora certa

A fronteira entre problemas rotineiros e problemas que demandam auxílio médico não é clara. Começar a — e, principalmente, parar de — tomar remédios é sempre uma decisão difícil, que depende de diagnóstico médico em função das circunstâncias e do perfil de cada paciente. Estar triste, por exemplo, não implica estar à beira da depressão. “Tristeza é parte da vida e pode até ser considerada uma reação saudável, que leva ao recolhimento”, diz Ivan Mourão. O normal é que esse sentimento se resolva com o tempo, na medida em que a pessoa siga com seu ritmo e mantenha suas atividades cotidianas. “Já a depressão não tem uma causa definida e torna a vida improdutiva, afetando o sono, a alimentação, o trabalho e a vida social”, compara.

Dois em cada três tranquilizantes que circulam no país são consumidos por mulheres. E com as anfetaminas a proporção é ainda maior: quatro em cada cinco, segundo o Cebrid.

A diferença entre a agitação e a ansiedade é parecida. “Em casos de ansiedade, o problema não é apenas psicológico e se expressa também no corpo da pessoa, que passa a ser afetado pela emoção”, explica Mourão. Alguns sintomas são disparo do coração, tonturas, vômitos, diarreias e falta de ar.

“O remédio apressa a melhora do paciente e pode ajudá-lo numa fase crítica, já que a terapia requer um prazo maior”, aponta o psiquiatra Miguel Roberto Jorge. O problema passa a ser, então, identificar o momento certo de interromper seu uso. “Essa é uma análise muito difícil, que depende do tipo de remédio utilizado e também do perfil da pessoa”, diz.

Ivan Mourão avalia que apenas em casos muito raros é necessário manter o uso de medicamentos por tempo prolongado, até mesmo indefinidamente — por exemplo, pessoas com dificuldade para lidar com seus problemas pela via psicológica. “Nessas situações, tirar o remédio pode ser pior”, reconhece. “Mas o ideal é que a submissão de medicamentos esteja sempre associada a uma terapia, para que se criem condições para deixar de usá-los.”

Usos e abusos

O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), ligado à Unifesp, fez em 2005 uma pesquisa domiciliar com 7.939 entrevistados. Os resultados revelam o quanto se usa e se abusa desses medicamentos no país. A proporção de pessoas que recorreram a estimulantes (anfetaminas, usadas como moderador de apetite) pelo menos uma vez na vida havia crescido de 1,5%, em 2001, para 3,8%, quatro anos depois. O uso de ansiolíticos (para controlar a ansiedade) passou de 3,3% para 5,6%, o que corresponde, se os resultados da amostra forem projetados para o país como um todo, a mais de 2,8 milhões de usuários brasileiros.

Ou melhor, brasileiras. Dois em cada três tranquilizantes que circulam no país são consumidos por mulheres. E com as anfetaminas a proporção é ainda maior: quatro em cada cinco, segundo a pesquisa do Cebrid. De acordo com especialistas, a maior prevalência de uso de psicotrópicos entre o sexo feminino pode ser em parte explicada pela suscetibilidade ao uso de anorexígenos, os remédios para emagrecer.

A pesquisadora Cleopatra da Silva Planeta, professora de Neuropsicofarmacologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, explica que o abuso de medicamentos psicotrópicos pode levar à dependência. Uma arma poderosa dessas substâncias é sua ação direta em áreas do cérebro responsáveis pelo comportamento e pelas sensações de prazer. Se o remédio for mal dosado ou mal monitorado, a tendência é que se busque novamente esse prazer, e cada vez mais. Logo, a mente da pessoa associa seu bem-estar ou o alívio de seu desconforto ao consumo do remédio, e já não pode viver sem ele.

Das quase 8 mil pessoas entrevistadas pelo Cebrid em 108 municípios, 39 (ou 0,5%) eram dependentes de ansiolíticos. “Muitas vezes, uma tristeza qualquer é encarada como depressão”, avalia a pesquisadora. “Uma mudança de hábito talvez pudesse, por si só, saciar a ansiedade e evitar a dependência em relação a um medicamento.” Outro tipo de medicamento que tem sido bastante procurado é a ritalina, frequentemente usada para aprimorar o desempenho acadêmico. A substância, um anfetamínico que pode melhorar o processamento da memória, é indicada para certos casos diagnosticados de déficit de atenção. Mas seu uso como incremento cognitivo para estudantes tem sido criticado por especialistas. “Há geralmente um excesso de diagnóstico”, afirma Cleopatra. “Às vezes a criança é um pouco mais agitada e já se utiliza a droga para controlar seu comportamento. Isso é um abuso.”

Tráfico de drogas

O problema recebe atenção da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por controlar a fabricação e o consumo de medicamentos no Brasil. No caso dos psicotrópicos, que levam a famosa tarja preta em torno de sua embalagem, o controle é mais rigoroso: eles só podem ser vendidos sob prescrição médica, com receita em duas vias. Uma fica retida na farmácia. A outra é  carimbada e devolvida ao paciente. Toda venda tem, ainda, de ser informada pela drogaria à Anvisa por meio do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados — em que se detalha qual o remédio vendido, seu lote de fabricação, o número da receita e dados do médico que o receitou.

Vivemos uma década farmacológica, em que alguns comportamentos foram transformados em patologias psiquiátricas. Para tudo busca-se um remédio, uma cura rápida, mas não se pergunta o porquê do sofrimento.

“A venda sem receita de medicamentos controlados pode ser considerada tráfico de drogas”, sublinha o diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Raposo de Mello. Um dos principais focos desse controle é o combate à automedicação, que inclui restrições à propaganda e publicidade de remédios. Uma resolução do órgão restringe os anúncios publicitários de remédios psicotrópicos a revistas de conteúdo exclusivamente técnico e dirigidas a profissionais especializados. Também exige destaque para contraindicações e problemas referentes ao consumo associado a outros medicamentos. Qualquer informação científica deve trazer menção aos artigos especializados de onde foi retirada.

Profissionais do setor reconhecem, no entanto, que a propaganda difundida pela indústria farmacêutica por meios alternativos — e em alguns casos pelos próprios consumidores — tem sido decisiva para o uso crescente de psicotrópicos. “O medicamento é uma mercadoria que as empresas querem vender, e essa venda está associada a uma mensagem de eficiência, rapidez, felicidade e alegria”, diz Cleopatra Planeta, da Unesp.

Miguel Roberto Jorge, da Unifesp, concorda que a maior proliferação de informações sobre o uso dessas substâncias requer atenção. “Uma parte das pessoas é induzida pela propaganda à automedicação.” De acordo com a pesquisa do Cebrid, nos Estados Unidos, onde a regulamentação para a publicidade de psicotrópicos é bem menos rígida, o uso de ansiolíticos atinge 8,3% da população e o de estimulantes, 6,6% — mais que o dobro do encontrado no Brasil.

Do outro lado do divã, o psiquiatra Ivan Mourão, do Hospital São Luiz, aponta a preocupação da comunidade médica, por meio de seus conselhos de classe, com os “mimos” oferecidos pela indústria farmacêutica aos consultórios psiquiátricos. E também confirma a sensação de impotência dos médicos frente a propagandas sobre o uso de remédio que circulam em sites, blogs, redes de relacionamento, fóruns e comunidades na internet. Algumas dessas páginas abrigam “orientações” a pacientes com distúrbios comportamentais, incluindo  dicas de medicamentos e lista de perguntas e respostas para rápidos autodiagnósticos on-line.

“A internet é, atualmente, um dos principais canais utilizados por criminosos para a venda de medicamentos falsificados e clandestinos”, reconhece Raposo de Mello, o diretor-presidente da Anvisa. “O cidadão deve ter cuidado com sites que prometem curas milagrosas para doenças graves ou medicamentos que prometam cura para várias doenças”, orienta. Ele lembra que a compra pela internet e sem receita médica de medicamentos controlados é ilegal. “Recomendamos a compra de medicamentos apenas em farmácias e drogarias legalmente autorizadas pela Agência e licenciadas pela Vigilância Sanitária local.”

Cuidado, remédios

Veja o perigo do consumo, sem prescrição médica, de medicamentos que atuam no sistema nervoso central:

• Entorpecentes, anestésicos injetáveis, analgésicos à base de ópio: o uso pode causar dependência física ou psíquica.

• Ansiolíticos, tranquilizantes, antidepressivos, antipsicóticos, psicoestimulantes, sedativos e hipnóticos: o abuso pode causar dependência.

• Anorexígenos: podem causar dependência, quando usados em excesso, e hipertensão pulmonar.

Fonte: Centro de Vigilância Sanitária

(Texto publicado na Revista DNA – Hospital São Luiz, número 8, em abril de 2009)

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

23/06/2009 às 7:59

Publicado em Reportagem

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