teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Saudade do bicho-papão

nenhum comentário

No meu tempo, que nem é tão distante assim, criança tinha medo de fantasma, de monstro, de mula sem cabeça, de bicho-papão. Hoje, tem medo de bandido. 

Ao que parece, a onda de assaltos a residências em Araraquara, incluindo condomínios e apartamentos, como tem mostrado esta Tribuna, já começou a mexer com a psicologia infantil. Nas famílias e escolas, há relatos diversos de crianças que, à noite, procuram o quarto dos pais ou pedem para dormir com luz acesa alegando que estão com medo de ladrão.

Jornais e televisão noticiam, todos os dias, invasão de domicílios, famílias feitas reféns, sequestros-relâmpagos, com reconstituições, vídeos e fotos de gente ferida e amedrontada, para não dizer o pior. Essas imagens e histórias acabam impregnando, como assombração, a mente das crianças.

Alguns psicólogos se especializaram em lidar com traumas associados à violência, tanto mais delicados quanto mais jovens forem as vítimas. Crianças  mantidas sob a mira de armas, amarradas e ameaçadas dificilmente esquecem o que passaram. Muitas carregam a sensação de insegurança para o resto da vida.

Mas quem ainda não foi vítima de assalto também precisa de orientação. Como evitar que a janela aberta no verão traga, junto com a brisa, o pesadelo? Como lidar com o medo? Como superar essa sensação onipresente de insegurança? Como e quando envolver a polícia, a guarda municipal, os conselhos comunitários?

Proteger as crianças talvez seja o impulso mais primitivo da humanidade. Mesmo com portões, grades, câmeras e cercas elétricas, todos nos sentimos, em alguma medida, impotentes. Começamos, então, a descobrir que lidar com fantasmas era muito mais fácil. Agora, o que dizer? “Esquece isso, filhinho. Ladrão não existe.” Antes fosse o bicho-papão…

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

28/02/2012 às 0:00

Publicado em Coluna

Deixe uma resposta