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Francisco Rolfsen Belda

Serra ou Dilma?

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Muitos diriam: “Marina!” Mas acabarão votando em José Serra ou Dilma Roussef para presidir o Brasil, no mínimo, até 2014. Apesar do Fla-Flu, são tipos parecidos, Dilma e Serra. No geral, falta-lhes appeal. Serra tropeça na campanha, mas tem base sólida. Dilma chegou acelerando, mas corre risco de derrapar. Serra, mais bem preparado, controla São Paulo. Dilma, mais oportuna, tem o apoio de Lula. Marina, sendo Silva, tem mais appeal, mas pouca chance. Enfim, Serra ou Dilma?

Serra é homem. Dilma é mulher. Os dois de meia-idade, da classe média esclarecida. Pagam suas próprias contas e as monitoram pessoalmente no Excel. Lêem regularmente livros, jornais e revistas. São capazes de dar instruções técnicas diretas a seus auxiliares. Parecem gostar de trabalhar. Não enriqueceram com a política. Pode soar pouco, mas são qualidades raras nos palácios brasileiros. Na mesa de um presidente assim, lobistas precisam suar mais. Isso é bom.

Trabalhando no governo federal, Serra foi capaz de organizar o acesso a remédios mais baratos e, para isso, enfrentou interesses multinacionais. Dilma, lá, foi capaz de organizar investimentos inéditos em infra-estrutura e, por isso, conquistou inegável capital político. Ambos conhecem orçamento público e política econômica. São considerados rigorosos com prazos e tarefas. Apreciam a eficiência. Poderiam muito bem gerenciar o Brasil. Mas qual dos dois?

Perfis – Meu filho de sete anos me pergunta em quem vou votar: Dilma ou Serra? Eu não sei o que responder. “Serra é careca, sério, tem olheira e só veste camisa azul clara.” “Aquela outra, como é que é mesmo? A Vilma? É brava, né?” Realmente, José Sério e Vilma Roussef não seriam bons professores primários. Falta-lhes paciência, simpatia, irreverência, gingado. Tudo o que sobra em Lula. Mas desconte isso, e as crianças ainda teriam muito a aprender com eles.

Serra e Dilma eram de esquerda. Ele liderou a UNE, exilou-se e estudou no exterior. Despontou politicamente no MDB paulista, até fundar o PSDB. Foi senador, prefeito, governador e ministro de Fernando Henrique, no Planejamento e na Saúde. Em 1995, criticava os juros altos e as metas de superávit de Pedro Malan. Em seu caminho ao Planalto, já atropelou Roseana Sarney, Tasso Jereissati e Aécio Neves: “Esta é minha última chance”, justificou ao mineiro, a sós.

Dilma, ainda garota, trocou sua identidade para combater com armas a ditadura na VAR-Palmares. Foi presa e torturada. Mais tarde, sairia do PDT gaúcho para o PT na esteira do governo Lula, de quem foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil. Em 2005, reorganizou o governo após a queda de José Dirceu e Antônio Palocci. Seu caminho ao Planalto começou aí, esgotadas uma a uma as melhores opções petistas. “Dilma, a candidata vai ser você”, pontificou Lula, sem precisar justificar.

Bem, e há ainda Marina, a ambientalista evangélica tardiamente alfabetizada nos seringais, eleita ao Senado e feita por Lula ministra do Meio Ambiente. Escanteada no governo pelo desenvolvimentismo dilmista, tornou-se a terceira via desta eleição. Para críticos, é uma política de nicho, influenciada por suas crenças religiosas e isolada em um partido ainda verde. Para entusiastas, uma nova esperança, um refúgio moral. Uma opção para quem não vai com os tucanos, aprova o atual governo, mas se desencantou com o PT.

Dizeres – Serra diz que o governo Lula até foi bom, mas que o foi apesar do PT. Diz que Dilma não é Lula. Que, diferente dele, ela não controla, mas é controlada pelo PT. Um governo Dilma, diz ele, seria uma aventura controlada pelos “mensaleiros” e “aloprados” do PT. Serra também diz que o país não começou com Lula, em 2002. Melhorou sim, mas isso vem desde o Plano Real, numa evolução que agora dá seus melhores frutos, com fundamentos herdados de FHC. Segundo ele, a vida melhorou apesar do PT.

Dilma diz que o governo Lula foi não apenas bom, mas excelente, e o foi graças ao PT. Diz que a ela foi confiado o legado de Lula. Que, se preciso, ele virá pessoalmente controlar o PT, sem contar o PMDB, PDT, PSB, PP e outros bichos. Um governo Serra, diz ela, seria um retrocesso capitaneado por quatro senhores reunidos em um bistrô nos Jardins. Dilma diz que o país se reinventou com Lula, em 2002. Ganhou novo ânimo empreendedor, tirou milhões de pessoas da pobreza. Segundo ela, a vida melhorou graças ao PT.

Já eu não sei bem o que dizer. Antes de decidir meu voto, verei ainda o que diz Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, mesmo que ele não tenha o calor de Heloísa Helena (que faz uma falta no Senado!), e mesmo que seu socialismo soe algo anacrônico. Apesar de suas origens, Plínio e Marina parecem hoje eqüidistantes de PT e PSDB. E penso que, não fossem suas circunstâncias partidárias e a bile da campanha, Serra e Dilma estariam mais próximos um do outro do que estão de seus respectivos vices, Índio da Costa, do DEM, e Michel Temer, do PMDB.

Fico imaginando uma chapa com Serra e Dilma, ou Dilma e Serra, um presidente e o outro, vice. Lula e FHC poderiam entender-se tomando um chá em Camp David, com Clinton e Obama. Saem os militantes do PT e seus programas totalitários. Saem os cardeais tucanos e suas enófilas indecisões. Surge um plano racional de governo, feito por Dilma e Serra mais três assessores em duas madrugadas no Power Point. Cria-se o Partido dos Trabalhadores Social-Democratas do Brasil (PTSDB). O povo aprova.

Mas, e agora, quem aceita ser vice? Serra ou Dilma?

(Revista Boemia, agosto de 2010)


Escrito por Francisco Rolfsen Belda

02/08/2010 às 4:57

Publicado em Artigo

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