teia de ideia [mídia e tecnologia]

Francisco Rolfsen Belda

Só depois do Carnaval

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Ano novo e já se começa a ouvir aquela história de que o trabalho no Brasil começa, mesmo, só depois do Carnaval. O pessoal brinca, acha graça, faz aquela cara de “comigo-não”. Mas quase todo mundo já foi apresentado a uma situação em que parece inevitável adiar planos e tarefas porque, por algum motivo, alguém ou alguma coisa só voltaria a funcionar, mesmo, depois do Carnaval.

Quer apresentar um projeto? “Ah, melhor esperar. Agora o supervisor está saindo de férias e vai deixar na gaveta. Melhor mostrar só depois do Carnaval.”

Quer lançar um livro? “Começo de ano não é bom. A repercussão na mídia é fraca, não dá pauta, ninguém vai ler. Melhor deixar para depois do Carnaval.”

Quer fazer um plano de estudo? “Sei não… O professor ainda não definiu o programa, e o ano letivo começa apenas em fevereiro. Aula, aula mesmo, só depois do Carnaval.”

Coisas assim (e até piores, como o vergonhoso recesso parlamentar) realmente acontecem. De fato, nós, brasileiros, ainda não somos internacionalmente reconhecidos pela disciplina e pelo afinco em produtividade no trabalho. E também não acho errado reservar alguns dias para recarregar as baterias, dentro das possibilidades de cada emprego e profissão. Mas essa história de que o ano começa mesmo só depois da folia parece-me, na verdade, um mito de mal gosto, que revela mais sobre quem o propaga do que sobre a cultura do país em si.

Bancos, comércio e a imensa maioria das repartições e serviços públicos funcionam normalmente. Indústrias trabalham sem parar, em até três turnos diários. Hospitais, idem. E raros são os prestadores de serviço e profissionais autônomos que podem se dar o luxo de esperar a cabrocha pendurar a saia para voltarem a ver entrar seus rendimentos. Para as escolas e universidades talvez ainda faltem, sim, cursos de férias e programas de estudo intensivo, optativos que sejam. Eu mesmo estou  pensando em propor algo assim. Mas só depois do Carnaval.

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

05/01/2012 às 15:50

Publicado em Coluna

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