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Francisco Rolfsen Belda

Texto para reflexão e comentário: “A corrupção acadêmica e a crise financeira”

com 7 comentários

Leia o texto a seguir, do documentarista Charles Fergson, publicado pela Folha de S. Paulo, no caderno Ilustríssima (p.6, 27/05/2012). Reflita sobre as questões que envolvem a “crítica ao racionalismo” no âmbito da sociologia da ciência, conforme tratada por autores como Thomas Kuhn e Pierre Bourdieu acerca da constituição de paradigmas e das relações mantidas entre os agentes do campo científico. Em seguida, publique um comentário discutindo o papel do jornalismo científico na cobertura de desses temas.

A corrupção acadêmica e a crise financeira

CHARLES FERGUSON
DO “GUARDIAN”

Muitas pessoas que viram meu documentário “Trabalho Interno” (2010) acharam que a parte mais perturbadora é a revelação sobre amplos conflitos de interesses em universidades e institutos de estudos e entre pesquisadores acadêmicos. Espectadores que assistiram às minhas entrevistas com eminentes professores universitários ficaram estarrecidos com o que saiu da boca deles.

Mas não deveríamos ter ficado surpresos. Nas duas últimas décadas, médicos já comprovaram de modo substancial a influência que o dinheiro pode exercer num campo supostamente objetivo e científico. De modo geral, as escolas de medicina e os periódicos médicos vêm reagindo bem, aderindo às exigências de transparência.

Os cursos de pós-graduação em economia, as faculdades de administração, as de direito e as de ciência política vêm reagindo de modo muito diferente. Nos últimos 30 anos, parcelas importantes do mundo acadêmico americano foram deterioradas, convertendo-se em atividades do tipo “pay to play” (pague para participar).

Gary Hershorn – 27.fev.11/Reuters
Charles Ferguson, diretor, e Audrey Marrs, produtora do filme, na entrega do Oscar de Melhor Documentário
Charles Ferguson, diretor, e Audrey Marrs, produtora do filme, na entrega do Oscar de Melhor Documentário

Hoje em dia, se você vir um célebre professor de economia depondo no Congresso ou escrevendo um artigo, são boas as chances de ele ou ela ter sido pago por alguém com grande interesse no que está em debate. Na maior parte das vezes esses professores não revelam esses conflitos de interesse. Além disso, na maior parte do tempo suas universidades se fazem de desentendidas.

Meia dúzia de firmas de consultoria, vários birôs de palestrantes e diversos grupos de lobby de setores diferentes mantêm grandes redes de acadêmicos de aluguel, com o objetivo de defender os interesses desses grupos em discussões sobre políticas e regulamentação.

Os principais setores envolvidos são energia, telecomunicações, saúde, agronegócio e, sem dúvida, o setor de serviços financeiros.

Alguns exemplos: o economista Glenn Hubbard virou reitor da Columbia Business School em 2004, pouco depois de deixar o governo George W. Bush (2001-09), no qual trabalhou no Departamento do Tesouro e foi o primeiro presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente, entre 2001 e 2003.

Boa parte de seu trabalho acadêmico é dedicado à política fiscal. Num resumo justo de suas posições intelectuais, pode-se dizer que ele jamais viu um imposto que tenha gostado de ver aprovado e em vigor. Em novembro de 2004, ele escreveu um artigo espantoso em coautoria com William C. Dudley, então economista-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs.

O artigo em questão, “Como os Mercados de Capitais Elevam a Performance Econômica e Facilitam a Geração de Empregos”, merece ser citado. Vale lembrar que estamos em novembro de 2004, com a bolha já bem encaminhada:

“Os mercados de capital têm ajudado a tornar o mercado imobiliário menos volátil. ‘Arrochos de crédito’ do tipo que, periodicamente, fecharam a oferta de recursos aos compradores da casa própria […] são coisas do passado.”

Hubbard se negou a dizer se foi pago ou não para escrever o artigo. E se negou a me fornecer sua declaração mais recente de conflitos de interesse financeiros com o governo, documento que não pudemos obter de outra forma porque a Casa Branca o destruiu.

Hubbard recebeu US$ 100 mil para depor na defesa criminal dos dois gerentes do fundo hedge (de alto risco) Bear Stearns, processados por envolvimento com a bolha; eles foram absolvidos. No ano passado, Hubbard se tornou assessor econômico sênior da campanha presidencial de Mitt Romney, o pré-candidato republicano à Presidência dos EUA.

RABO PRESO

Outro economista, Larry Summers, já ocupou quase todos os cargos governamentais importantes na área econômica. Secretário do Tesouro sob o presidente Bill Clinton (1993-2001), em 2009 ele se tornou diretor do Conselho Econômico Nacional na administração Barack Obama.

Embora seja sensato em relação a muitas questões, Summers cometeu uma sucessão bem documentada de erros e concessões. E seus pontos de vista sobre o setor financeiro dificilmente seriam distinguidos dos de, digamos, Lloyd Blankfein (chefe do Goldman Sachs) ou Jamie Dimon (presidente do banco JPMorgan).

Diego Giudice – 1º.dez.99/Associated Press
O então secretário do Tesouro americano, Larry Summers em visita a Buenos Aires
O então secretário do Tesouro americano, Larry Summers em visita a Buenos Aires

A maior parte de nossas informações sobre Summers vem de sua declaração obrigatória de conflitos de interesse, exigida pelo governo. De acordo com a declaração dada em 2009 por Summers, sua fortuna líquida estava calculada entre US$ 17 milhões e US$ 39 milhões. Seus recebimentos totais no ano antes de ingressar no governo chegaram a quase US$ 8 milhões. O Goldman Sachs pagou a Summers US$ 135 mil por um discurso.

Larry Summers é um homem com o rabo preso, que deve a maior parte de sua fortuna e boa parte de seu sucesso político à indústria de serviços financeiros e que esteve envolvido em algumas das decisões de política econômica mais desastrosas da última metade de século. Na administração Obama, Summers se opôs à adoção de medidas fortes para punir banqueiros ou limitar a receita deles.

A universidade de Harvard ainda não exige que Larry Summers divulgue seus envolvimentos com o setor financeiro. Tanto Harvard quanto Summers negaram meus pedidos de informação.

O problema da corrupção acadêmica hoje está tão profundamente entrincheirado que essas disciplinas e essas universidades importantes estão gravemente comprometidas, e qualquer pessoa que pensasse em se opor à tendência ficaria racionalmente muito assustada.

COMEDIMENTO

Considere a seguinte situação: você é estudante de doutorado ou um membro júnior do corpo docente que estuda a possibilidade de fazer pesquisas sobre, digamos, as estruturas de pagamento aos profissionais que assumem riscos nos serviços financeiros, ou sobre o impacto potencial das exigências de divulgação pública de informações sobre o mercado de “credit default swaps” –instrumentos financeiros que funciona como um seguro contra calotes. O reitor de sua universidade é… Larry Summers. O chefe de seu departamento é… Glenn Hubbard.

Ou você está no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e quer estudar o declínio dos pagamentos de impostos de pessoas jurídicas. A reitora do MIT é Susan Hockfield, que faz parte do conselho de direção da General Electric, uma empresa que vem conseguindo evitar o pagamento de quase todos os impostos corporativos há vários anos.

Até que ponto essas forças de fato afetam as pesquisas acadêmicas e as políticas das universidades? As evidências das quais dispomos sugerem que o efeito é grande.
Os comentários sobre a crise financeira proferidos por economistas na academia têm sido bastante comedidos. É verdade que existem algumas exceções notáveis. Na maior parte do tempo, porém, o silêncio tem sido ensurdecedor.

Como é possível que um setor inteiro seja estruturado de modo que funcionários sejam encorajados a saquear e destruir suas próprias firmas? Por que a desregulamentação e a teoria econômica fracassaram tão espetacularmente?

O lançamento do documentário “Trabalho Interno” claramente mexeu com sensibilidades que foram tocadas por essas questões. Fui contatado por estudantes e docentes em grande número, e houve debates em grande número.

Algumas escolas, incluindo a Columbia Business School, adotaram exigências de divulgação de informações pela primeira vez.

Mas a maioria das universidades ainda não faz essas exigências, e poucas ou nenhuma impõem qualquer limitação à existência de conflitos de interesse. O mesmo se aplica à maioria das publicações acadêmicas.

Repórteres de jornais são proibidos terminantemente de aceitar dinheiro de qualquer setor econômico ou organização sobre o qual escrevam matérias. O mesmo não acontece no mundo acadêmico.

Houve um avanço positivo importante. No início deste ano, a Associação Americana de Economia passou a exigir uma declaração de conflitos de interesse para os sete periódicos que edita.

Mas a maioria das instituições ainda se opõe à divulgação de mais informações, e, quando eu estava fazendo meu filme, se negou até mesmo a tratar do assunto.

Tradução de CLARA ALLAIN.

Escrito por Francisco Rolfsen Belda

28/05/2012 às 16:02

Publicado em Jornalismo Científico

7 Respostas para 'Texto para reflexão e comentário: “A corrupção acadêmica e a crise financeira”'

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  1. Não se pode dizer que a ciência é feita apenas com idealismo e “sede” de conhecimento. É claro que há muito mérito, principalmente nos cientistas renascentistas, que quebraram paradigmas de conhecimento, mas não se pode afirmar que não há interesses pessoais e vantagens escondidas em tais pesquisas. Obviamente há financiamentos direcionados a determinadas pesquisas, motivadas por interesses políticos e/ou econômicos de um determinado país ou região e, nesse contexto, a imprensa não deixa de agir da mesma forma.

    Os veículos de divulgação científica deveriam, mas dificilmente privilegiam o conhecimento apenas pelo conhecimento. Em grande parte, pesquisas só se transformam em pautas se forem feitas por um pesquisador renomado, por uma universidade conceituada ou se forem patrocinadas por grandes corporações.

    Essa diferença que se faz entre aquilo que pode e o que com certeza dará “ibope” não é uma atitude coerente, pois pode minimizar a cobertura de grandes descobertas que não sejam feitas nos principais centros econômicos de um país, por exemplo. Creio que o papel da imprensa e dos veículos de divulgação científica seja o de privilegiar toda e qualquer busca pelo conhecimento, independente do interesse embutido. É claro que essa não é uma tarefa fácil, já que a ciência por si própria age da mesma forma desde o começo do processo.

    Cássio Leonardo Carrara

    29/05/2012 em 16:50

  2. O papel do Jornalismo Cientifico na Cobertura destes temas deveria ser neutra ,não só vangloriar os cientistas renomados e ficar fazendo pautas deles e nem ficar falando também de coisas que ninguém nunca ouviu falar e não teria muita importância .
    Cabe ao jornalista saber o que é ou não interessante para ajudar a elevar o nível de matérias cientificas que possam mostrar os verdadeiros valores da ciência.
    Thomas Kuhn fala sobre a revolução historiográfica da ciência e sobre a unidade epistêmica que seria a teoria do racionalismo já Pierre Bourdieu fala da sociologia do campo científico, o que tem a haver com as matérias acima ,ele fala que todo cientista busca por prestígio, cargos,e que isso interfere na formação da validade e publicação de uma teoria,pesquisa.E realmente como podemos ver isso acontece muito principalmente no Jornalismo que é patrocinado pelo capitalismo .

    Camila Fernanda Servo

    02/06/2012 em 15:52

  3. A cobertura de conteúdos científicos no jornalismo deveria ser como todas as outras matérias. Simples, mas com todos os detalhes, informações, explicações de cientistas, pesquisadores e dados que comprovam o porquê daquela determinada experiência ou explicação. Linguagem clara para todos se o assunto for muito complexo explicar passo a passo todos os caminhos que foram feitos para chegar a um determinado resultado.
    Fica a critério do veículo de comunicação que fornece informações e ao jornalista saber e conhecer do assunto se é viável ou não a publicação dessas matérias científicas. Mas o interessante é passar para o leitor diferentes assuntos, seja científico ou não.
    Com variáveis editorias e reportagens isso pode elevar o nível tanto do veículo de comunicação como também dos textos que estão sendo mostrados para o público que na verdade irá mostrar os conteúdos verdadeiros da ciência e também outras informações abordadas.

    Tamiris Marchi Bunhola

    08/06/2012 em 20:10

  4. Infelizmente o mundo hoje roda em torno do “dinheiro”, em todos os setores neste caso discutimos na formação acadêmica quanto às pesquisas, estudos e demais intenções do jovem acadêmico que muitas vezes realiza algo do gênero sobre pagamentos “escondidos” de grandes laboratórios (desenvolvimentos de remédios/vacinas), pesquisas para instituições financeiras entre outros artifícios usados principalmente na universidade, proposto por eles como uma pesquisa que em tese seria qualitativa e relevante.
    Muitas até são, mas, infelizmente tem como seu principal alvo não a “descoberta” de algo novo que possa ajudar a sociedade, algumas das pesquisas tem cartas marcadas com o resultado sendo óbvio antes mesmo da finalização do projeto, isso por que existe um financiador, que só colocou seu dinheiro neste projeto, sabendo que seu lucro será estrondo podemos chamar isso sem dúvida de uma verdadeira “Casa da mãe Joana”, onde entra que quer sai como querem é se querem.
    Com tudo isso como fica o Jornalismo Científico, quando se tem por relevância apresentar a sociedade um resultado de uma pesquisa, não cabe ao meio divulgador duvidar de seu resultado e aplicação mais sim dos interesses e financiamentos muitas vezes ilícitos, porém não é de instrumento do jornalismo discutir o papel de ética científica com o pesquisador, mas, ele tem por dever buscar informações de como foi a procedência para a realização da pesquisa, barreiras claro serão impostas, mas se o divulgador do resultado se restringir a oferecer as demais informações, pense um pouco será mesmo que tal pesquisa é importante é deve ser veiculada em um órgão de imprensa, pois muitas vezes estamos fazendo “merchandising” subliminar.
    Apenas para finalizar passando do campo acadêmico para o campo prático, um exemplo de tal desprendimento ético, alguns médicos receitam determinado remédio é impõe que tem que ser do laboratório X e não do Y, isso já aconteceu comigo e com todos tenho certeza por que será que isso acontece. Você já percebeu que sempre o que ele indica é o de maior custo, é o outro faz o mesmo efeito com menor custo, esse pequeno exemplo é para destacar que muitas vezes que não só o jornalismo científico é “enganado” mais sim toda a sociedade, fazendo assim com que se tenha uma “herança maldita” vinda desde o órgão formador.

    Evandro Goulart

    17/06/2012 em 8:13

  5. O texto é mais uma prova de que nem a ciência está livre dos interesses dos poderes. O papel jornalístico aí seria divulga de forma correta os conteúdos científicos pesquisados, mas sabe-se que nem sempre é isso que é feito, infelizmente.

    Vitor Hugo Franceschini

    21/06/2012 em 17:40

  6. Na cobertura do papel e a maneira do jornalismo cientifico deve ser de uma forma como todas as outras matérias mostrando sim, uma maneira objetiva, mas claro com os seus conceitos abordando e oferecendo conhecimento no assunto que será abordado não somente as pessoas com conhecimento também os leigos no assunto mostrando a verdadeira face do jornalismo cientifico e o verdadeiro valor da ciência.
    Nos dias atuais visando o “dinheiro” para obter esse terminado conhecimento “capitalismo”.

    Francisléia Regina de Favere

    25/06/2012 em 19:20

  7. Não é de se estranhar a situação caótica em que também chegou a classe acadêmica. Estamos falando de NOME com letras maiúsculas. É o que importa para a divulgação ciêntífica. Interesses políticos fazem parte da alma pobre e estúpida do ser humano que se prostituem pelo dinheiro, pelo poder e pela “pobre fama”. Ou você faz parte do meio e esteja preparado para o que der e vier ( seja justo, humano, correto ou não), ou o próprio meio se imcumbe de lança-lo para bem longe.

    Realidade? Triste realidade … bem vindo ao mundo dos “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

    Andreza Palanca

    25/06/2012 em 20:02

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